Quando o “parecer negra” ocupa o lugar do “ser”

Confesso que tem coisas que me atravessam de um jeito difícil de explicar, e uma delas é observar certos movimentos que, à primeira vista, parecem banais, mas que, no fundo, dizem muito sobre nós, sobre o que valorizamos e sobre o que ainda precisamos discutir. Quando penso em Lewis Hamilton, não penso só em um […] O conteúdo Quando o “parecer negra” ocupa o lugar do “ser” aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Quando o “parecer negra” ocupa o lugar do “ser”

Confesso que tem coisas que me atravessam de um jeito difícil de explicar, e uma delas é observar certos movimentos que, à primeira vista, parecem banais, mas que, no fundo, dizem muito sobre nós, sobre o que valorizamos e sobre o que ainda precisamos discutir.

Quando penso em Lewis Hamilton, não penso só em um piloto brilhante. Penso em um homem negro que, ao longo dos anos, construiu uma narrativa potente de enfrentamento ao racismo, de valorização da sua identidade, de orgulho. Hamilton sempre foi, para muitos de nós, mais do que um atleta foi símbolo, foi referência, foi inspiração.

E é justamente por isso que algumas escolhas ou até mesmo rumores provocam incômodo.

A possibilidade de vê-lo ao lado de Kim Kardashian não me faz questionar o direito de ninguém amar quem quiser. Isso é inegociável. Mas me faz pensar. E pensar profundamente.

Porque Kim Kardashian representa um fenômeno muito específico do nosso tempo: o de pessoas que se aproximam, consomem e performam uma estética negra — o corpo, o cabelo, a linguagem, o estilo sem carregar o peso de ser negra. Sem carregar o olhar atravessado, a exclusão, a violência simbólica e real que nós, pessoas negras, conhecemos desde cedo.

E isso, para mim, não é detalhe.

Ao longo da vida, vi e vivi o quanto a sociedade rejeita corpos negros reais, mas, ao mesmo tempo, exalta versões “editadas” dessa negritude quando elas aparecem em corpos não negros. É como se o mundo dissesse: “gostamos do que vocês têm, mas não necessariamente de vocês”.

E quando um homem negro, potente, bem-sucedido, que sempre se colocou como alguém consciente do seu papel, se aproxima desse tipo de representação, o incômodo não é sobre ele. É sobre o que isso simboliza.

Porque não é só sobre um relacionamento. Nunca é só.

É sobre um padrão que se repete. Sobre quantas vezes mulheres negras assistem, de longe, enquanto são substituídas por versões “palatáveis” de si mesmas. Sobre quantas vezes somos referência estética, mas não escolha afetiva.

E antes que alguém diga que isso é exagero, eu devolvo com outra pergunta: por que esse tema incomoda tanto quando é levantado?

Talvez porque ele revele algo que muitos preferem não encarar.

Não se trata de controlar afetos. Se trata de entender estruturas. De perceber que até o amor ou aquilo que chamamos de amor também é atravessado por construções sociais, por racismo, por validação, por desejo moldado.

E, sim, também penso no histórico do próprio Hamilton, em rumores que o ligaram a mulheres deste mesmo padrão como Nicole Scherzinger e até outras figuras como a Iza outras figuras que dialogam com esse lugar de identificação. Isso também constrói uma expectativa não uma obrigação, mas uma expectativa simbólica.

Porque quando alguém ocupa um lugar de representação, suas escolhas deixam de ser apenas individuais. Elas passam a dialogar com um coletivo.

No fim, não é sobre apontar dedos. É sobre fazer perguntas.

O que estamos valorizando?
O que estamos reproduzindo?
E, principalmente, o que estamos deixando de enxergar?

Porque estética pode ser tendência. Pode ser moda. Pode ser estratégia.

Mas identidade… identidade é vivência.

E isso, definitivamente, não se veste — se carrega.

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