O Diabo veste Jackson: Diferenças e Convergências em dois sucessos de bilheteria

É inevitável comparar dois dos maiores lançamentos de sucesso recente: O Diabo Veste Prada 2_e a cinebiografia “quase” autobiográfica de Michael Jackson. Os dois projetos corriam riscos opostos. A sequência da comédia sobre moda tentava resgatar personagens 20 anos depois, em um mundo em que a China nem aparecia como potência e hoje concentra as […] O conteúdo O Diabo veste Jackson: Diferenças e Convergências em dois sucessos de bilheteria aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

O Diabo veste Jackson: Diferenças e Convergências em dois sucessos de bilheteria
É inevitável comparar dois dos maiores lançamentos de sucesso recente: O Diabo Veste Prada 2_e a cinebiografia “quase” autobiográfica de Michael Jackson. Os dois projetos corriam riscos opostos.
A sequência da comédia sobre moda tentava resgatar personagens 20 anos depois, em um mundo em que a China nem aparecia como potência e hoje concentra as principais lojas e lojas-conceito do planeta. O filme de Jackson tinha o desafio de dar conta da vida do maior rei do pop de todos os tempos sem cair no obituário oficial ou no sensacionalismo.

O Diabo Veste Prada 2 acerta na medida. Os roteiristas escolhem mostrar a evolução e o envelhecimento das protagonistas e da própria indústria. Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep, agora negocia com o pseudônimo fim da era das revistas impressas e a ascensão dos influenciadores. Andy Sachs, Anne Hathaway, migrou do jornalismo de moda para o digital e precisa se reinventar.

Emily Charlton, Emily Blunt, virou executiva de luxo e sente o peso das novas regras. O filme usa essas trajetórias para mapear a mudança do mercado: a imprensa tradicional em crise, o glamour repaginado e a entrada dos asiáticos como financiadores.
O fechamento, com uma milionária de ascendência asiática comprando ativos do setor, espelha o que a China faz hoje ao adquirir marcas e vitrines globais.
Já a cinebiografia de Michael Jackson decepciona quem acompanhou a vida do artista de perto. O filme concentra o drama no conflito entre Michael e o pai, Joseph Jackson, e reduz a narrativa a um embate familiar. Fica de fora um conjunto de episódios que marcaram a infância e a adolescência do astro: a exploração do trabalho infantil na Motown, a pressão por perfeição vocal e coreográfica, o isolamento social imposto pela fama precoce, as primeiras cirurgias no nariz ainda na juventude e o processo de branqueamento da imagem que alimentou debates sobre identidade racial. Também não aprofunda as acusações judiciais, a dependência de medicamentos e o esgotamento físico dos anos 90 e 2000.
Talvez o erro esteja no formato. Ao dividir a história em partes, o filme adia para uma suposta sequência os conflitos mais complexos e psicológicos. A estratégia segura o tom e evita polêmica, mas esvazia a densidade do personagem. Michael Jackson não foi apenas “o menino que brigou com o pai”. Foi um fenômeno cultural quebrou barreiras raciais na MTV, inventou a estética do videoclipe e viveu sob microscópio até a morte em 2009. Narrar isso exige mais que cenas de estúdio e julgamento paterno.
No fim, os dois filmes mostram caminhos diferentes para lidar com o tempo. Prada 2 usa o envelhecimento como método: envelhece as personagens, a moda e o próprio discurso sobre poder. O filme de Jackson ainda trata o tempo como censura. Um escolhe atualizar o espelho, o outro adia o reflexo. Por isso um conversa com o presente e o outro fica devendo a biografia que prometeu para o futuro.

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