ONU: tráfico de escravos: mais grave crime contra a humanidade
Somos campeões mundiais em relação ao número escravizados oriundos de África. Aos EUA chegaram 389 mil escravizados. Ao Brasil, quase cinco milhões de um total de aproximadamente 12,5 milhões de pessoas trazidas à força do continente africano, em episódio considerado “o crime mais grave contra a humanidade”. A ONU caracterizou o tráfico transatlântico de africanos […] O conteúdo ONU: tráfico de escravos: mais grave crime contra a humanidade aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Somos campeões mundiais em relação ao número escravizados oriundos de África. Aos EUA chegaram 389 mil escravizados. Ao Brasil, quase cinco milhões de um total de aproximadamente 12,5 milhões de pessoas trazidas à força do continente africano, em episódio considerado “o crime mais grave contra a humanidade”.
A ONU caracterizou o tráfico transatlântico de africanos escravizados assim: como o mais grave crime contra a humanidade. Decisão de 25 de março deste ano, Dia Internacional de Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Escravos.
Caracteriza o crime como Violação profunda da história humana, de escala, duração, brutalidade e consequências seculares, a perpetuar o racismo, presente inegavelmente até os dias atuais. Decisão de peso político e simbólico, embora não juridicamente vinculante, chama a humanidade a pensar na reparação.
Um pouco perplexo com o silêncio dos movimentos sociais brasileiros diante de tal decisão. Admito estar equivocado: quem sabe não tenha acompanhado devidamente as manifestações favoráveis à decisão, e se estiver, farei autocrítica. Inaceitável tenha havido indiferença face a um episódio histórico de tanta importância.
O crime, compra e venda de gente, então o melhor negócio do mundo, foi uma marca da acumulação primitiva do capital, a partir do capitalismo comercial. Desenvolveu-se até o momento da irrupção do capitalismo maduro, industrial, crime só paralisado mesmo no início dos anos 1860 do século XIX, por interesse sobretudo da Inglaterra. A industrialização, não mais afeita ao trabalho escravo. Era da mais-valia, exploração do trabalho assalariado.
Iniciativa de Gana, apoiada pela União Africana, espera abrir caminho para reparação e justiça. Teve 123 votos a favor, incluindo o do Brasil. EUA e Israel, senhores da guerra, votaram contra, seguidos pela Argentina. Houve 52 abstenções, a incluir Reino Unido e membros da União Europeia, todos naturalmente com culpa no cartório, participantes ativos do crime.
As reparações devem considerar os efeitos contínuos da escravidão e do colonialismo nos dias atuais, na visão do secretário-geral da ONU, António Guterres. Defende-se a “restituição rápida e sem entraves” de itens culturais aos países de origem, a devolução de todos os artefatos saqueados no decorrer do colonialismo, parte do patrimônio, da cultura, do significado espiritual de cada nação.
Cobra-se dos Estados-membros da ONU pedido de desculpas pelo tráfico de escravizados e contribuição para um fundo de reparações. O presidente de Gana, John Mahama, registra: “quando a história nos convocou, fizemos o que era certo em memória dos milhões que sofreram a indignidade do tráfico de escravizados e daqueles que continuam a sofrer discriminação racial”. Trata-se de uma proteção contra o esquecimento, defesa da memória histórica.
Brasil nasce do trabalho escravo, somos produto da iniciativa do capital comercial nascente. Primeiro, indígenas, e nós não podemos ignorar esse primeiro grande crime, vítimas de um massacre cuja dimensão não pode jamais ser ignorada. Correu muito sangue indígena: de uma população estimada entre três milhões e cinco milhões em 1500, viram-se reduzidos a menos de meio milhão em 1888.
Os africanos, submetidos a trabalhos forçados, responsáveis pela construção desse País conhecido por nós, hoje. Até o fim da escravidão, garantiram os vários ciclos econômicos, asseguraram a acumulação. Pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, diamante, tabaco, algodão, café, e o que mais fosse, garantia para a chegada da industrialização. Na constituição da classe trabalhadora, jamais esquecer a participação decisiva, não obstante forçada, dos milhões de africanos, aqui chegados sob correntes.
Ao saudar a decisão da ONU, o fazemos pensando nos homens e mulheres oriundos de África. A nos legar desenvolvimento, trazer tão rica cultura, a sobreviver até os dias de hoje. Resistiram, sobreviveram, exercitando o heroísmo prosaico de cada dia, liderando tantas revoltas por todo o Brasil, a lembrar na Bahia a dos Malês, a dos Búzios, a dos Periquitos.
Nunca ignorar, na constituição do povo brasileiro, a presença essencial afrodescendente, a contribuição rica, preciosa dos oriundos de África, sem esquecer os 670 mil mortos na travessia do Atlântico, que a nossa luta deve honrar. Do fundo dos mares, ecoa o grito de revolta por tanta desumanidade. A decisão da ONU é um passo adiante, um. Só a continuidade da luta de todos nós, dos democratas, dos socialistas, dos comunistas, dos antirracistas, negros, brancos, mulatos, pardos, o que seja, é que permitirá outros passos. A luta continua.
O conteúdo ONU: tráfico de escravos: mais grave crime contra a humanidade aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

