Estudante denuncia racismo institucional e enfrenta processo com risco de expulsão em universidade do Rio

Ariane Moura, coautora de Guia Antirracista para Odontologia, afirma que não teve acesso aos autos do procedimento administradivo que pode impedir a conclusão da sua formação

Estudante denuncia racismo institucional e enfrenta processo com risco de expulsão em universidade do Rio

Por Luana Miranda

Ariane Moura, de 23 anos, jovem negra do último período de odontologia e coautora do Guia Antirracista para Odontologia, corre o risco de perder cinco anos de sua formação. De acordo com a estudante, há cerca de dois meses a Universidade Veiga de Almeida (UVA) abriu um procedimento administrativo que visa a sua expulsão, meses antes de finalizar a graduação. 

A jovem conta que a notificação do procedimento administrativo chegou por e-mail e a pegou  de surpresa. “Eu não tenho acesso aos documentos, eu não sei do que eu estou sendo acusada”, comentou. Ela foi convocada para uma reunião presencial com representantes da UVA e, na ocasião, foi informada de que não teria direito a advogado. Até a sua mãe foi proibida de entrar na sala.

“Eles me questionaram o que eu iria palestrar no dia seguinte. O que eu iria falar. O tempo todo o questionamento foi sobre o assunto da palestra, sobre o racismo. Falaram que eu teria que comer muito arroz com feijão para ser doutora”, relembra a estudante. Ela relata que, durante a reunião, representantes da UVA informaram que ela estaria excedendo o limite como aluna ao realizar palestras sobre racismo no campo da saúde. Além disso, pediram para que a jovem retirasse os vídeos informativos sobre odontologia que costumava postar em seu perfil no Instagram.

Ela afirma que se sentiu coagida, ameaçada e acabou assinando papéis sem a devida orientação, acatando as solicitações com medo de perder a formação acadêmica que construíra até ali. “Eu retirei os vídeos, publiquei uma nota dizendo que era estudante. Em todos os jornais que você procurar, estou me referindo a mim mesma como estudante. Sempre agi de boa fé.” 

Em depoimento para a Revista Afirmativa, Dr. Hédio Silva Jr., assessor jurídico da estudante, alegou que Ariane foi notificada informalmente há pouco mais de uma semana de que houve uma decisão da comissão processante pelo desligamento, mas que ainda haveria a possibilidade de solicitar um recurso para a reitoria. 

No momento, a defesa está pleiteando o acesso aos autos do procedimento administrativo. Ainda segundo o Dr. Hédio, a portaria que delimita a acusação precisa garantir que Ariane possa apresentar testemunhas e coletar provas defensivas, e nada disso foi feito. “Ela, inclusive, assinou documentos dos quais sequer tem cópias. Por isso, nós estamos chamando esse procedimento administrativo disciplinar de ‘clandestino’, ‘oculto’”, declarou.

Para a estudante, esse é mais um episódio de racismo institucional. Ariane afirma que nunca prescreveu receita ou realizou atendimentos, e que sempre se apresentou enquanto estudante. “Negros em ascensão vão sempre incomodar. Eles vão sempre procurar qualquer brecha. Porque as minhas outras amigas da faculdade, que são brancas, todas estão com o jaleco bordado escrito doutora antes da formatura”, comenta.

A jovem afirma que o seu único objetivo era falar sobre racismo no campo da saúde e ampliar o debate para a população negra. Além dos impactos acadêmicos e profissionais, o procedimento administrativo tem deixado marcas na saúde mental da estudante, que afirma ter recebido um diagnóstico de depressão por conta dos episódios recentes.“Eu enxergo a minha formação como a única maneira de emancipação financeira e intelectual. Preciso dela para tocar a minha vida.”

A Revista Afirmativa entrou em contato com a Universidade Veigas de Almeida, mas, até o encerramento desta matéria, não houve resposta quanto ao procedimento administrativo imputado à estudante. 

Ariane Moura nasceu no município de Japeri (RJ), uma das regiões com os piores indicadores de pobreza da Baixada Fluminense, de acordo com levantamento do Instituto Pereira Passos (IPP). Em busca de oportunidade de trabalho e melhores condições de vida, aos 17 anos  foi morar na capital do Rio de Janeiro. “A gente sabe que o CEP da pessoa muda todas as oportunidades que ela tem”, avalia. A mudança movimentou uma grande força tarefa familiar, possibilitando que Ariane fosse morar no antigo hortifruti da comunidade dos Guararapes, favela da Zona Sul. Logo em seguida, ingressou na universidade privada Veiga de Almeida, pelo Fundo de Financiamento Estudantil (FIES),  do Governo Federal.

Ainda no primeiro ano da faculdade, Ariane começou a escrever sobre a experiência de ser uma mulher negra no campo da saúde, especificamente, na odontologia. “Eu sempre escrevi, desde pequena, mas nunca havia publicado nada. E sempre fui muito questionadora”, relembrou a estudante. Já no quarto período da graduação, uma professora a convidou para um congresso, em que precisaria falar sobre o papel das mulheres negras na odontologia. Nesse evento, os caminhos de Ariane começaram a ser traçados enquanto divulgadora científica. Logo depois da palestra, surgiu a oportunidade de publicar o Guia Antirracista para Odontologia, com a coautoria das profissionais Jôice Corrêa e Carol Lemos. 

O Guia teve grande repercussão, com lançamento em vários estados. A jovem entendeu que o campo da saúde estava carente de formação para enfrentar o racismo. Mesmo após o sucesso nacional da publicação, Ariane conta que ainda não conseguia apoio dentro do estado para realizar os seus projetos no campo da saúde, então passou a promover os próprios eventos nas periferias e morros da capital. “Eu queria subir nas comunidades do Rio de Janeiro para levar informação. Em todos os eventos eu levo médicos, nutricionista. Falo do Guia, falo da área da saúde em um contexto racial. Mas sempre como estudante”, completa.