Podcast “DNA Ancestral” discute apagamento da ancestralidade negra nos nomes brasileiros

Produção narrativa será lançada na íntegra esta semana e aborda identidade racial, memória e reconexão com raízes africanas 

Podcast “DNA Ancestral” discute apagamento da ancestralidade negra nos nomes brasileiros

Por Catiane Pereira

O podcast narrativo DNA Ancestral propõe uma reflexão sobre identidade racial e apagamento histórico a partir de uma pergunta central: por que a população brasileira, majoritariamente descendente de povos africanos, carrega tão poucos nomes de origem africana? A produção será divulgada na próxima quinta-feira (14)  no perfil do #Colabora – Jornalismo Sustentável no YouTube e Spotify.

Maria, José e Ana estão entre os nomes mais comuns do Brasil, segundo dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já Silva, Souza e Santos aparecem entre os sobrenomes mais frequentes do país. Apesar da forte presença africana na formação da sociedade brasileira, nomes de origem africana seguem pouco presentes na identidade da população. É a partir dessa inquietação que nasce o podcast narrativo DNA Ancestral, criado pela jornalista Ana Carolina Ferreira.

A produção surgiu a partir de uma investigação pessoal da autora sobre sua própria história familiar. Ana Carolina conta que o interesse pela ancestralidade começou em 2023, quando percebeu as dificuldades em acessar informações sobre os antepassados. “Cresci em uma família em que a história parecia terminar nos meus avós maternos”, afirma. Segundo ela, as lacunas familiares refletem uma realidade comum entre famílias negras brasileiras atravessadas pelo racismo, pela pobreza e pelo apagamento histórico.

A jornalista relata que a avó materna, hoje com 92 anos, saiu ainda adolescente do interior de Macaé (RJ) para trabalhar como trabalhadora doméstica no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), antes de construir a vida em São Gonçalo (RJ). Ao longo dos anos, parte da memória familiar se perdeu. “Minha mãe não conheceu os avós, eu não conheci meus bisavós e percebi que meus tios também sabiam muito pouco. Essa ausência de memória me causava um desconforto profundo, como se um direito me fosse negado”, explica.

Ao revisitar a própria história, Ana Carolina passou a refletir também sobre o significado do próprio nome. “Percebi que cada parte dele carrega heranças europeias e católicas que não refletem totalmente minha ancestralidade. Eles contam só um lado da história”, diz. Para ela, enquanto pessoas brancas conseguem rastrear origens familiares por meio dos sobrenomes, pessoas negras frequentemente encontram barreiras provocadas pelo processo de escravização.

O podcast foi desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em Jornalismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orientação da professora Helen Britto. A narrativa utiliza a escrevivência como metodologia e aposta na oralidade como ferramenta ancestral de transmissão de saberes.

Para Ana Carolina, esse processo de apagamento revela uma política histórica de desumanização. “Quando as pessoas foram escravizadas e trazidas para o Brasil, a primeira coisa que lhes foi roubada foi o nome. Elas eram rebatizadas para perder qualquer conexão com sua terra, sua língua e seus antepassados”, explica.

A autora relaciona esse processo ao conceito de “morte social”, apresentado pelo escritor Laurentino Gomes em suas pesquisas sobre escravidão. 

Além de discutir apagamento histórico, o podcast busca provocar identificação e acolhimento em pessoas negras que enfrentam dificuldades para reconstruir a própria árvore genealógica. “Quero que as pessoas compreendam que essa dificuldade não é uma falha individual ou falta de interesse da família, mas resultado de um projeto histórico de apagamento”, diz.

Segundo Ana Carolina, o conceito africano Sankofa, que propõe olhar para o passado para ressignificar o presente e construir o futuro, guiou toda a construção narrativa do projeto. “Mesmo diante do silenciamento da nossa história, nossa existência por si só já é um ato de resistência. A ancestralidade está em tudo, basta um olhar mais atento”, completa.

Os episódios também reúnem especialistas e personagens que refletem sobre identidade racial, saúde mental, memória e reconexão ancestral. Entre os convidados estão o antropólogo Thales Vieira, o historiador Jorge Nascimento, a professora Juliana Soledade, a psicóloga Karin Juliana da Silva e a empreendedora Bia Moremi.