Incêndio em Ponta Belém destrói mercadorias, ameaça habitações e transforma corredor de vendas em cenário de desespero

Nesta terça-feira, 02 de Junho, Ponta Belém ainda não conseguiu voltar à normalidade. Para onde se olhasse, viam-se vendedeiras dispersas, sentadas junto dos escombros ou em silêncio, a tentar perceber como continuar depois de tudo ter sido consumido pelo fogo.Algumas confessavam não ter coragem para entrar no espaço onde, até há poucos dias, montavam as suas bancas e garantiam o sustento das suas famílias.O cheiro intenso a queimado ainda dominava o ambiente, misturado com a visão de mercadorias reduzidas a cinzas e estruturas completamente destruídas. No meio do cenário de devastação, uma habitação atingida pelo incêndio permanecia marcada pelas chamas, lembrando a dimensão do fogo que alastrou pela zona.À porta da loja chinesa afectada, o proprietário e a sua equipa permaneciam em silêncio, sem saber ao certo como reagir perante a destruição quase total do espaço comercial. O fogo consumiu mercadorias, equipamentos e parte significativa do stock, deixando apenas restos carbonizados e um cenário de incerteza.Entre olhares perdidos e tentativas de resgatar o que sobrou, Ponta Belém transformou-se, por algumas horas, num espaço de dor, desespero e reconstrução adiada.O InícioSegundo a Inforpress, o fogo começou antes das 15:00 e, em poucos minutos, alastrou-se rapidamente pelas estruturas do mercado, atingindo mercadorias, uma loja chinesa e habitações numa zona considerada de difícil acesso. As primeiras informações apontam que o incêndio terá sido provocado por três crianças que atearam fogo a um colchão nas proximidades do mercado. A partir daí, as chamas espalharam-se de forma violenta, alimentadas pela elevada concentração de materiais inflamáveis armazenados no local. O cenário de destruição deixou dezenas de famílias sem o principal meio de subsistência. Muitas das comerciantes afectadas dependiam exclusivamente das vendas em Ponta Belém para sustentar os filhos, pagar rendas, financiar viagens comerciais e garantir a sobrevivência diária dos agregados familiares.ComerciantesEntre os escombros, Nadira Cabral, de 29 anos, tenta conter as lágrimas enquanto observa o que restou da sua banca.“Quando o incêndio começou eu não estava na Cidade da Praia, estava numa comunidade no interior da ilha de Santiago. Tinha que esperar uma viatura para poder vir para a Praia. Quando cheguei aqui a minha mercadoria já tinha sido toda consumida, juntamente com os meus documentos que estavam na banca, porque tinha viajado para comprar mercadorias, então não tive nem tempo de arrumar”, conta.“Perdi tudo, as compras novas, duas mesas de roupas, sete bidões de mercadorias. São mais de 700 contos investidos. Não tenho noção do valor total do prejuízo porque tinha mercadorias ainda fechadas. Não consegui recuperar nada”, acrescenta a rabidante, visivelmente abalada.Em meio do desespero, Nadira faz um apelo às autoridades e à população para ajudar as vendedeiras a retomarem as actividades.“Peço a todos que possam ajudar que nos ajudem. À Câmara Municipal da Praia apelamos para que, o mais rapidamente possível, prontifique condições para voltarmos às vendas. Não podemos ficar paradas, não podemos ficar sentadas em casa. É daqui que tiramos o nosso sustento”, afirma.A rabidante lamenta ainda a ausência de segurança no local no momento do incêndio e acredita que uma intervenção mais rápida poderia ter reduzido os danos.“No momento do acontecido nem um guarda estava no local. Se estivesse, poderia alertar para o fogo e talvez houvesse menos perdas. As outras colegas vendedeiras que estavam na tradicional feira de domingo arrombaram a porta na tentativa de salvar alguma coisa, mas perdeu-se a maioria. É daqui que retiramos o nosso sustento. O corredor do nosso ganha-pão hoje se tornou o corredor de desespero”, desabafa.O combate às chamas mobilizou várias corporações de bombeiros e prolongou-se durante horas. Os Bombeiros Municipais da Praia contaram com reforços de Santa Catarina de Santiago, Tarrafal, operacionais do Serviço Nacional de Proteção Civil e ainda de populares que auxiliaram no fornecimento de água e no combate ao fogo.BombeirosO comandante dos Bombeiros da Praia, Carlos Teixeira, considerou lamentável a ocorrência, mas assegurou que houve uma resposta imediata por parte das equipas de socorro. Segundo explicou, no momento em que o alerta foi recebido, por volta das 15h10, os bombeiros da Praia encontravam-se divididos entre outras duas situações de emergência: um incêndio no aterro municipal e um grave acidente de viação em Vale da Custa, São Francisco, que provocou duas vítimas mortais.Ainda assim, garantiu que a corporação reorganizou os meios disponíveis e deslocou-se rapidamente para Ponta Belém com duas viaturas de combate ao incêndio. Carlos Teixeira agradeceu igualmente o apoio prestado pelas restantes corporações e por todos os envolvidos na operação, defendendo uma maior organização dos espaços comerciais para prevenir situações semelhantes.“Uma das dificuldades, por exemplo, no combate ao incêndio na loja

Incêndio em Ponta Belém destrói mercadorias, ameaça habitações e transforma corredor de vendas em cenário de desespero

Nesta terça-feira, 02 de Junho, Ponta Belém ainda não conseguiu voltar à normalidade. Para onde se olhasse, viam-se vendedeiras dispersas, sentadas junto dos escombros ou em silêncio, a tentar perceber como continuar depois de tudo ter sido consumido pelo fogo.

Algumas confessavam não ter coragem para entrar no espaço onde, até há poucos dias, montavam as suas bancas e garantiam o sustento das suas famílias.

O cheiro intenso a queimado ainda dominava o ambiente, misturado com a visão de mercadorias reduzidas a cinzas e estruturas completamente destruídas. No meio do cenário de devastação, uma habitação atingida pelo incêndio permanecia marcada pelas chamas, lembrando a dimensão do fogo que alastrou pela zona.

À porta da loja chinesa afectada, o proprietário e a sua equipa permaneciam em silêncio, sem saber ao certo como reagir perante a destruição quase total do espaço comercial. O fogo consumiu mercadorias, equipamentos e parte significativa do stock, deixando apenas restos carbonizados e um cenário de incerteza.

Entre olhares perdidos e tentativas de resgatar o que sobrou, Ponta Belém transformou-se, por algumas horas, num espaço de dor, desespero e reconstrução adiada.

O Início

Segundo a Inforpress, o fogo começou antes das 15:00 e, em poucos minutos, alastrou-se rapidamente pelas estruturas do mercado, atingindo mercadorias, uma loja chinesa e habitações numa zona considerada de difícil acesso. As primeiras informações apontam que o incêndio terá sido provocado por três crianças que atearam fogo a um colchão nas proximidades do mercado. A partir daí, as chamas espalharam-se de forma violenta, alimentadas pela elevada concentração de materiais inflamáveis armazenados no local. O cenário de destruição deixou dezenas de famílias sem o principal meio de subsistência. Muitas das comerciantes afectadas dependiam exclusivamente das vendas em Ponta Belém para sustentar os filhos, pagar rendas, financiar viagens comerciais e garantir a sobrevivência diária dos agregados familiares.

Comerciantes

Entre os escombros, Nadira Cabral, de 29 anos, tenta conter as lágrimas enquanto observa o que restou da sua banca.

“Quando o incêndio começou eu não estava na Cidade da Praia, estava numa comunidade no interior da ilha de Santiago. Tinha que esperar uma viatura para poder vir para a Praia. Quando cheguei aqui a minha mercadoria já tinha sido toda consumida, juntamente com os meus documentos que estavam na banca, porque tinha viajado para comprar mercadorias, então não tive nem tempo de arrumar”, conta.

“Perdi tudo, as compras novas, duas mesas de roupas, sete bidões de mercadorias. São mais de 700 contos investidos. Não tenho noção do valor total do prejuízo porque tinha mercadorias ainda fechadas. Não consegui recuperar nada”, acrescenta a rabidante, visivelmente abalada.

Em meio do desespero, Nadira faz um apelo às autoridades e à população para ajudar as vendedeiras a retomarem as actividades.

“Peço a todos que possam ajudar que nos ajudem. À Câmara Municipal da Praia apelamos para que, o mais rapidamente possível, prontifique condições para voltarmos às vendas. Não podemos ficar paradas, não podemos ficar sentadas em casa. É daqui que tiramos o nosso sustento”, afirma.

A rabidante lamenta ainda a ausência de segurança no local no momento do incêndio e acredita que uma intervenção mais rápida poderia ter reduzido os danos.

“No momento do acontecido nem um guarda estava no local. Se estivesse, poderia alertar para o fogo e talvez houvesse menos perdas. As outras colegas vendedeiras que estavam na tradicional feira de domingo arrombaram a porta na tentativa de salvar alguma coisa, mas perdeu-se a maioria. É daqui que retiramos o nosso sustento. O corredor do nosso ganha-pão hoje se tornou o corredor de desespero”, desabafa.

O combate às chamas mobilizou várias corporações de bombeiros e prolongou-se durante horas. Os Bombeiros Municipais da Praia contaram com reforços de Santa Catarina de Santiago, Tarrafal, operacionais do Serviço Nacional de Proteção Civil e ainda de populares que auxiliaram no fornecimento de água e no combate ao fogo.

Bombeiros

O comandante dos Bombeiros da Praia, Carlos Teixeira, considerou lamentável a ocorrência, mas assegurou que houve uma resposta imediata por parte das equipas de socorro. Segundo explicou, no momento em que o alerta foi recebido, por volta das 15h10, os bombeiros da Praia encontravam-se divididos entre outras duas situações de emergência: um incêndio no aterro municipal e um grave acidente de viação em Vale da Custa, São Francisco, que provocou duas vítimas mortais.

Ainda assim, garantiu que a corporação reorganizou os meios disponíveis e deslocou-se rapidamente para Ponta Belém com duas viaturas de combate ao incêndio. Carlos Teixeira agradeceu igualmente o apoio prestado pelas restantes corporações e por todos os envolvidos na operação, defendendo uma maior organização dos espaços comerciais para prevenir situações semelhantes.

“Uma das dificuldades, por exemplo, no combate ao incêndio na loja chinesa que foi afectada é justamente no armazém, onde havia acúmulo de materiais, grades de ferro e, numa outra parte, baterias que são usadas em painéis solares, o que acabou por intensificar as chamas, mas ainda assim foi combatido”, explicou.

As críticas sobre uma alegada demora na chegada dos bombeiros levaram também a Câmara Municipal da Praia a emitir um comunicado de esclarecimento, reafirmando que os meios foram mobilizados assim que possível e destacando o envolvimento de várias entidades no combate ao incêndio.

Câmara Municipal da Praia

Face à dimensão dos prejuízos, a Câmara Municipal da Praia reuniu-se de emergência e anunciou um plano de contingência avaliado em cerca de 12 mil contos. Numa primeira fase, a autarquia vai apoiar as 52 rabidantes afectadas com um subsídio de 25 mil escudos por cada bidão perdido, abrangendo um total de 321 bidões, num investimento superior a oito mil contos.

A Câmara anunciou ainda o perdão integral das dívidas das comerciantes afectadas, num valor estimado em 500 contos, bem como a requalificação integral do mercado de Ponta Belém, com melhorias na vedação, cobertura, rede eléctrica, iluminação e pavimentação, num investimento previsto de 3.500 contos.

O presidente em exercício da Câmara Municipal da Praia, Fernando Pinto, destacou que a autarquia está a desenvolver intervenções em vários mercados da capital para melhorar as condições de segurança, higiene e organização dos espaços destinados ao comércio informal.

Segundo explicou, bairros como Terra Branca, Eugénio Lima e Vila Nova já beneficiaram de intervenções semelhantes, enquanto decorrem esforços para descentralizar parte da actividade comercial actualmente concentrada no Sucupira e no Platô.

Fernando Pinto explicou ainda que a Câmara Municipal da Praia pretende promover uma distribuição mais equilibrada da actividade comercial pelos diferentes bairros da capital, embora reconheça existir resistência por parte de alguns vendedores, muitos dos quais continuam a preferir exercer actividade em zonas como Sucupira e Platô, consideradas mais movimentadas e com maior fluxo de clientes.

Apesar disso, assegurou que a autarquia mantém o objectivo de criar mercados mais atractivos e organizados em vários bairros da cidade, dotados de melhores condições de segurança, higiene e conforto para comerciantes e consumidores.

Segundo o presidente substituto da Câmara Municipal da Praia, entre as medidas previstas estão a criação de balneários, melhoria da organização dos espaços, reforço das condições de identificação dos comerciantes e melhores condições para a comercialização dos produtos.

Fernando Pinto sublinhou ainda que o crescimento acelerado da Cidade da Praia exige maior capacidade de planeamento e antecipação dos problemas urbanos, destacando que o município dispõe de um Plano de Desenvolvimento Municipal e, actualmente, de outro em processo de revisão, considerados instrumentos fundamentais para acompanhar a expansão da capital e responder às necessidades da população.

Presidente da República

O Presidente da República, José Maria Neves, deslocou-se ao local na manhã desta terça-feira para prestar solidariedade às famílias afectadas e apelou a uma forte articulação entre o Governo e a Câmara Municipal da Praia.

“Não vale a pena lamentar depois dos incidentes. É preciso agora que a própria Câmara, em articulação com o Governo, encontre formas de eventualmente aceder a algum fundo de emergência para apoiar as pessoas na sua recuperação”, afirmou.

O Chefe de Estado reconheceu o esforço dos bombeiros e dos populares que participaram no combate às chamas e chamou atenção para a necessidade de maior planeamento urbano, sobretudo em zonas de difícil acesso como Ponta Belém.

Enquanto isso, em Ponta Belém, muitas rabidantes continuam a tentar recuperar documentos, separar restos de mercadorias queimadas e calcular os prejuízos que, para várias famílias, representam anos de trabalho consumidos em poucas horas pelas chamas.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279 de 03 de Junho de 2026.