Mo na Txom: A feira onde a paciência vale achados únicos há gerações
Numa ronda pela Avenida, o Expresso das Ilhas encontrou Edelmira Veiga que, conforme conta, sempre vai à “Butique Mo na Txom” para ver o “Ya”, nome dado aos produtos em venda.“Sempre soube que no “Ya” havia preços acessíveis e de qualidade. Por isso compro e não tenho vergonha de dizer que compro “porque acaba sempre por ser uma compra interessante”, relata.Além de encontrar artigos diferentes, Edelmira afirma que há menos possibilidade de encontrar outra pessoa com uma peça igual.“São sempre produtos de qualidade e sempre me surpreendo, porque encontro peças interessantes; hoje encontrei até sapatos que eu gosto, de marca que eu não poderia pagar caso fosse numa loja”, exemplifica. Edelmira Veiga admite que procura a Butique Mo na Txom pelo menos duas vezes ao mês. “Basta ter dinheiro”, brinca.Quando se depara com produtos novos, que ainda contêm etiquetas, num bom preço, mesmo que não sirva, Edelmira compra e depois revende. “Se eu encontrar algo que eu gosto e que eu sei que posso ganhar ainda que 200 escudos com aquela calça, ou blusa, compro e revendo. Hoje por exemplo, encontrei um par de cortinas: é bonito, mas é curto para as minhas janelas e a senhora vendia por 1.500 escudos. Mas porque não comprar e revender por 3 mil escudos?”, argumenta.Na “Butique Mo na Txom” também é possível encontrar pessoas que vão lá fazer compras pela primeira vez, como Lisa Semedo.“Estou aqui a convite de uma amiga. Estávamos a caminho do outro lugar, mas ela acabou convencendo-me a vir aqui procurar algo de interessante”, relata.Lisa Semedo admite que nunca tinha experimentado por falta de paciência para revirar e procurar até encontrar algo que lhe interessasse. “Há sempre muita gente, muito sol, não há montras, é preciso procurar até encontrar e eu não tenho paciência”, reforça.“É preciso procurar muito, revirar muito e nem todos os rabidantes gostam que lhes revirem os seus produtos. Agora mesmo uma vendedora gritou comigo porque eu estava a revirar tudo. E isto é um pouco chato, ainda mais eu que não gosto que as pessoas gritem comigo”, aponta.Um outro motivo que lhe impediu de ir à Avenida até este domingo é a possibilidade de lá ir sozinha. “Quando estou acompanhada, tenho mais paciência porque fico mais relaxada”, diz.Na sua primeira compra, entretanto, Lisa ficou surpreendida pela variedade dos produtos e dos preços. Por exemplo, cita, comprou quadros decorativos que lhe custaram um total de 800 escudos, um conjunto de dois lençóis e duas fronhas de algodão, sem uso, por 1.500 escudos.“A minha amiga gosta de um “Ya”, sempre garante que além de confortáveis são de uma melhor qualidade. Não apenas ela o diz. Já ouvi muitas pessoas dizerem o mesmo e até hoje não tinha vindo cá porque não tinha encontrado uma companheira e acabei fazendo uma boa compra”, salienta.Depois da primeira experiência, garante que vai voltar, desde que acompanhada. “Deparei-me com produtos de marcas num preço super acessível, marcas de acessórios que normalmente custam um bom dinheiro, mas estava num preço bom aqui”, enfatiza.“Sei que é original porque são vindos dos EUA, ao contrário de outras lojas aqui que vendem o falsificado”, conclui.Mas, o “Mo na Txom” já não é o que era...Há 24 anos, Ivete vende roupas e artigos de casa vindos dos EUA, Portugal, França e Dakar, na Ponta Belém. Aos domingos, entretanto, vai para a Avenida Cidade de Lisboa tentar ganhar um pouco mais.“As roupas novas que aqui tenho são as que eu mesmo fui comprar em Portugal, França ou Dakar, mas, as usadas compro nos bidões”, descreve.Conforme explica, um bidão de primeira custa 75 mil escudos e um de segunda custa entre 35 mil e 40 mil escudos.“O bidão de primeira tem roupas mais bonitas, as mais usadas são de segunda”, explana.Ivete vende cada peça do bidão de primeira entre 500 e mil escudos. Já as roupas dos bidões de segunda são vendidas entre 300 e 500 escudos.“Mas, as roupas do bidão de primeira vendem mais. Por vezes aparecem artigos para casa, mas, quase sempre são roupas e sapatos”, comenta.Nos bidões de primeira, diz Ivete, há clientes que dão mais valor à qualidade, outras dão mais valor à marca. “Até porque os EUA têm boas marcas. As bolsas dos EUA são bonitas e vendem-se rapidamente pela sua qualidade. Muitas são de marca”.Quem compra conhece todas as marcas, mas quem não conhece acaba por estabelecer um preço baixo, conforme a vendedeira.“E quando é assim, os clientes ficam felizes e dizem mesmo que estão contentes por comprar boas marcas num óptimo preço. Nós não conhecemos e vendemos barato”, aponta.Quanto às roupas que traz das viagens, a vendedeira pontua que mesmo sendo bonitas e novas vendem menos do que as roupas dos bidões, e os clientes alegam que a qualidade das roupas dos EUA é superior. “Mesmo sendo usados, têm um pouco mais de qualidade”.Segundo Ivete, os jovens de menos idade têm comprado cada vez mais “Ya” com a justificação de que além de bonitas, são roupas estranhas e únicas.“Então, a maioria das pessoas que compra no “Mo na Txom” s
Numa ronda pela Avenida, o Expresso das Ilhas encontrou Edelmira Veiga que, conforme conta, sempre vai à “Butique Mo na Txom” para ver o “Ya”, nome dado aos produtos em venda.
“Sempre soube que no “Ya” havia preços acessíveis e de qualidade. Por isso compro e não tenho vergonha de dizer que compro “porque acaba sempre por ser uma compra interessante”, relata.
Além de encontrar artigos diferentes, Edelmira afirma que há menos possibilidade de encontrar outra pessoa com uma peça igual.
“São sempre produtos de qualidade e sempre me surpreendo, porque encontro peças interessantes; hoje encontrei até sapatos que eu gosto, de marca que eu não poderia pagar caso fosse numa loja”, exemplifica.
Edelmira Veiga admite que procura a Butique Mo na Txom pelo menos duas vezes ao mês. “Basta ter dinheiro”, brinca.
Quando se depara com produtos novos, que ainda contêm etiquetas, num bom preço, mesmo que não sirva, Edelmira compra e depois revende.
“Se eu encontrar algo que eu gosto e que eu sei que posso ganhar ainda que 200 escudos com aquela calça, ou blusa, compro e revendo. Hoje por exemplo, encontrei um par de cortinas: é bonito, mas é curto para as minhas janelas e a senhora vendia por 1.500 escudos. Mas porque não comprar e revender por 3 mil escudos?”, argumenta.
Na “Butique Mo na Txom” também é possível encontrar pessoas que vão lá fazer compras pela primeira vez, como Lisa Semedo.
“Estou aqui a convite de uma amiga. Estávamos a caminho do outro lugar, mas ela acabou convencendo-me a vir aqui procurar algo de interessante”, relata.
Lisa Semedo admite que nunca tinha experimentado por falta de paciência para revirar e procurar até encontrar algo que lhe interessasse. “Há sempre muita gente, muito sol, não há montras, é preciso procurar até encontrar e eu não tenho paciência”, reforça.
“É preciso procurar muito, revirar muito e nem todos os rabidantes gostam que lhes revirem os seus produtos. Agora mesmo uma vendedora gritou comigo porque eu estava a revirar tudo. E isto é um pouco chato, ainda mais eu que não gosto que as pessoas gritem comigo”, aponta.
Um outro motivo que lhe impediu de ir à Avenida até este domingo é a possibilidade de lá ir sozinha. “Quando estou acompanhada, tenho mais paciência porque fico mais relaxada”, diz.
Na sua primeira compra, entretanto, Lisa ficou surpreendida pela variedade dos produtos e dos preços. Por exemplo, cita, comprou quadros decorativos que lhe custaram um total de 800 escudos, um conjunto de dois lençóis e duas fronhas de algodão, sem uso, por 1.500 escudos.
“A minha amiga gosta de um “Ya”, sempre garante que além de confortáveis são de uma melhor qualidade. Não apenas ela o diz. Já ouvi muitas pessoas dizerem o mesmo e até hoje não tinha vindo cá porque não tinha encontrado uma companheira e acabei fazendo uma boa compra”, salienta.
Depois da primeira experiência, garante que vai voltar, desde que acompanhada. “Deparei-me com produtos de marcas num preço super acessível, marcas de acessórios que normalmente custam um bom dinheiro, mas estava num preço bom aqui”, enfatiza.
“Sei que é original porque são vindos dos EUA, ao contrário de outras lojas aqui que vendem o falsificado”, conclui.
Mas, o “Mo na Txom” já não é o que era...
Há 24 anos, Ivete vende roupas e artigos de casa vindos dos EUA, Portugal, França e Dakar, na Ponta Belém. Aos domingos, entretanto, vai para a Avenida Cidade de Lisboa tentar ganhar um pouco mais.
“As roupas novas que aqui tenho são as que eu mesmo fui comprar em Portugal, França ou Dakar, mas, as usadas compro nos bidões”, descreve.
Conforme explica, um bidão de primeira custa 75 mil escudos e um de segunda custa entre 35 mil e 40 mil escudos.

“O bidão de primeira tem roupas mais bonitas, as mais usadas são de segunda”, explana.
Ivete vende cada peça do bidão de primeira entre 500 e mil escudos. Já as roupas dos bidões de segunda são vendidas entre 300 e 500 escudos.
“Mas, as roupas do bidão de primeira vendem mais. Por vezes aparecem artigos para casa, mas, quase sempre são roupas e sapatos”, comenta.
Nos bidões de primeira, diz Ivete, há clientes que dão mais valor à qualidade, outras dão mais valor à marca. “Até porque os EUA têm boas marcas. As bolsas dos EUA são bonitas e vendem-se rapidamente pela sua qualidade. Muitas são de marca”.
Quem compra conhece todas as marcas, mas quem não conhece acaba por estabelecer um preço baixo, conforme a vendedeira.
“E quando é assim, os clientes ficam felizes e dizem mesmo que estão contentes por comprar boas marcas num óptimo preço. Nós não conhecemos e vendemos barato”, aponta.
Quanto às roupas que traz das viagens, a vendedeira pontua que mesmo sendo bonitas e novas vendem menos do que as roupas dos bidões, e os clientes alegam que a qualidade das roupas dos EUA é superior. “Mesmo sendo usados, têm um pouco mais de qualidade”.
Segundo Ivete, os jovens de menos idade têm comprado cada vez mais “Ya” com a justificação de que além de bonitas, são roupas estranhas e únicas.
“Então, a maioria das pessoas que compra no “Mo na Txom” são aquelas que não gostam de roupas que todo mundo tem”, complementa.
Contudo, a venda do “Ya”, já não é o que era, segundo Janete. “Há dias que não consigo vender nada. Mas também há mais concorrentes, há mais pessoas a vender e assim sendo nem todos conseguem um bom dia de venda todos os dias”, sustenta.
Rabidante há mais de 15 anos e vendendo há pelo menos 10 anos no “Mo na Txom”, Ana também afirma que a venda já não é o que costumava ser, mesmo com as promoções de domingo. “Mas pelo menos consigo vender todos os dias, mesmo que pouco”, ameniza.
Tal como Ivete, Ana vende roupas vindas dos EUA que compra nos bidões. “As pessoas têm reclamado dos preços, mas o preço está um pouco diferente mesmo porque o preço dos bidões também aumentou”, justifica.
Além do mais, prossegue, mesmo que queiram, as pessoas já não conseguem comprar tanto quanto antes, devido ao custo de vida. “O dinheiro agora é para comer, primeiro temos de comprar comida e só depois comprar roupas ou outras coisas”, avalia.
Ana vende roupas novas e de segunda-mão e os preços variam de acordo com o valor pago pelo bidão.
“Quando compramos um bidão barato, os preços dos nossos produtos também ficam barato, mas se comprarmos por mais caro temos de vender mais caro. A peça mais barata aqui custa 200 escudos e a mais cara 2 mil que é mais nova”.
TikTok desperta curiosidade dos mais jovens pelo “Mo na Txom”
O “Mo na Txom” está a conquistar novos públicos através do TikTok, onde vídeos com achados, preços e combinações têm despertado a curiosidade de jovens que, até então, não tinham o hábito de frequentar estes espaços.
A influencer Maísa Garcia, de 27 anos, explica que decidiu abordar o tema precisamente por fazer parte do quotidiano de muitos cabo-verdianos.
“Resolvi falar do “Mo na Txom” porque é uma realidade nossa”, conta. Maísa confidencia que passou a ser reconhecida pela forma como escolhe as peças. “Sou conhecida entre amigas como aquela que melhor encontra roupas ali”.

Nos conteúdos que publica, percebe um interesse crescente por parte do público. “Muitos comentários são sobre como consigo encontrar peças únicas e há seguidores que se mostram surpreendidos com o que podemos encontrar ali, apesar de ainda existir algum receio associado à compra de roupa usada, mas esta percepção está a mudar”.
“Há pessoas que não gostam de dizer que compraram ali, mas outras assumem e até dizem o preço”, refere.
Para Maísa, o “Mo na Txom” continua a ser uma opção relevante, não só pelos preços, mas também pela diversidade e qualidade.
“Há quem prefira comprar ali em vez de produtos chineses, porque encontra várias opções e preços acessíveis, além de que são peças duráveis. Tenho roupas que comprei há anos e ainda as tenho”, ressalta.
Por frequentar a feira há anos, Maísa garante que ultimamente o “Mo na Txom” mudou, o que a tem levado a ir menos vezes.
“As pessoas têm confundido o “Mo na Txom” com boutiques e isso está a mudar os preços. Alguns vendedores já praticam valores mais elevados, o que contraria a ideia tradicional de “moia”, acessibilidade”, lamenta.
Neste sentido, Maísa alerta aos seguidores que é importante não comprar sem necessidade e experimentar as peças ainda no local da compra.
“Porque muita gente leva peças que depois não servem, o que fomenta o consumismo”.
Por sua vez, Stacy Fernandes, influencer da ilha da Boa Vista, teve o primeiro contacto com o “Mo na Txom” durante uma visita à Praia, motivada por relatos que ouvia há anos.
“Sempre tive curiosidade, porque aqui não temos algo do género”, afirma.
A experiência superou as expectativas. “Na primeira vez fiquei surpreendida com a variedade”, recorda.
Mais tarde, ao visitar novamente o espaço, decidiu partilhar a experiência com os seguidores. “Pensei em mostrar as compras, porque há pessoas que não gostam por ser roupa usada, mas eu vi muito potencial”, admite.
A reacção do público foi imediata. “Recebi muitos pedidos para continuar a fazer vídeos deste tipo”, conta. Vários seguidores demonstraram interesse em conhecer melhor o “Mo na Txom”.
Para Stacy, este tipo de conteúdo acaba por aproximar novos públicos. “As pessoas começaram a perguntar onde comprei, o que mostra curiosidade”.
Apesar disso, reconhece que ainda existem barreiras culturais. “Muitos jovens preferem roupa nova ou de marca, mas no “Mo na Txom” é possível encontrar peças semelhantes por preços mais acessíveis”, defende.
A influencer observa também mudanças nos preços. “Antes falava-se de moias entre 100 e 300 escudos, agora há peças a 800 escudos ou mais”, diz. Aponta ainda a presença de compradores que adquirem produtos para revenda.
Quanto à qualidade, a avaliação é positiva. “Encontrei peças em muito bom estado, algumas praticamente novas, com melhor tecido do que em certas lojas e adaptadas às minhas necessidades”, reitera.
Na Boa Vista, admite, esta realidade ainda é pouco comum. “Não temos essa cultura como na Praia, mas seria interessante ter algo semelhante”, considera.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1275 de 06 de Maio de 2026.