O asterisco invisível
Toda vez que um profissional negro é promovido, alguém na sala pensa, mas não diz, “cotas”. Toda vez que uma empresária negra fecha um contrato, alguém atribui o feito a algum programa, alguma concessão, alguma benevolência institucional. Esse pensamento tem nome. É um asterisco invisível. E ele gruda na pele de quem entrou pela porta […] O conteúdo O asterisco invisível aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Toda vez que um profissional negro é promovido, alguém na sala pensa, mas não diz, “cotas”. Toda vez que uma empresária negra fecha um contrato, alguém atribui o feito a algum programa, alguma concessão, alguma benevolência institucional. Esse pensamento tem nome. É um asterisco invisível. E ele gruda na pele de quem entrou pela porta da ação afirmativa, e também de quem nunca precisou dela.
A cota racial entrou em vigor nas universidades federais em 2012 e consolidou-se em lei dois anos depois. A política era, e continua sendo, necessária. O problema é o que aconteceu ao redor dela.
Criou-se uma lógica perversa. O cotista passou a carregar esse asterisco. Quando se forma, sua titulação é vista com suspeita. Quando é promovido, sua competência é questionada. Quando fala, sua palavra pesa menos. E o mais cruel: quando erra, o erro é atribuído à cota, não à condição humana de errar.
A diferença agora é que esse estereótipo ganhou camadas. Não é só sobre raça. É sobre raça + gênero + origem social. A mulher negra de periferia enfrenta um triplo desconto: pelo corpo racializado, pelo corpo feminino, pelo endereço. O empresário negro gay ouviu mais vezes do que deveria que sua empresa é “iniciativa da comunidade”, não negócio. O intelectual negro de favela é lido como exceção, nunca como regra.
Os grupos que já desprezavam a cota agora usam ela como argumento. “Você é cotista” virou insulto. “Você entrou por cota” virou explicação para qualquer conquista subsequente. A política pública que deveria corrigir desigualdade estrutural foi capturada por uma narrativa que insiste em ver o benefício como privilégio, e o privilégio histórico como merecimento natural.
A ironia é que os dados desmentem essa narrativa. Segundo o Censo da Educação Superior de 2023, divulgado pelo MEC e pelo Inep, 51% dos alunos cotistas da rede federal concluíram seus cursos, contra 41% dos não cotistas. Na UERJ, pioneira das cotas no Brasil, os cotistas historicamente superam os demais nas taxas de diplomação e, em diversos cursos, apresentam coeficiente de rendimento maior que os estudantes de ampla concorrência. Na UnB, pesquisa no curso de medicina mostrou que algumas modalidades de cotistas tiveram desempenho superior ao de quem entrou pelo sistema universal. Mas a lógica do estigma não precisa de dados. Precisa de poder. E quem controla a narrativa ainda não largou o controle.
Eu sei do que estou falando porque vivo isso. Construí um ecossistema comunicação territorial a partir de Paraisópolis, não apesar de Paraisópolis. Nenhum cliente me contratou por piedade. Nenhum contrato veio por concessão. Mas o asterisco invisível aparece: nas reuniões em que meu CNPJ é tratado como “projeto social”, nos eventos em que meu nome é escalado para o painel de diversidade, nunca para o de negócios. O asterisco não pergunta se você é cotista. Ele vê a cor e o CEP e já marca.
O que falta? Que a cota deixe de ser explicação e vire apenas informação. Que o currículo do profissional negro, da empresária negra, do intelectual negro seja lido sem a necessidade de justificação. Que a pergunta “mas você entrou por cota?” seja respondida com outra pergunta: “e daí?”
A política de cotas abriu a porta. Agora precisamos desmontar o espantalho que foi erguido do lado de fora.
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