O Funk, o Jogo e o Negro

O funk nasceu como grito. Grito de corpo, de batida e de sensualidade que não pediu licença para atravessar a ponte, o túnel e a classe social. Do baile na quadra de terra ao Spotify global, rompeu fronteiras geográficas e de CEP, lançando ao mundo Anitta, Ludmilla, Luísa Sonza do funk-pop, Kevin o Chris, Hariel, […] O conteúdo O Funk, o Jogo e o Negro aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

O Funk, o Jogo e o Negro

O funk nasceu como grito. Grito de corpo, de batida e de sensualidade que não pediu licença para atravessar a ponte, o túnel e a classe social. Do baile na quadra de terra ao Spotify global, rompeu fronteiras geográficas e de CEP, lançando ao mundo Anitta, Ludmilla, Luísa Sonza do funk-pop, Kevin o Chris, Hariel, e uma geração que transformou laje em palco. É indústria bilionária, é soft power brasileiro, é a trilha sonora que faz gringo rebolar sem entender a letra. Mas é também filho direto do berço mais desigual do país: a favela. E ali, onde o Estado chega de caveirão, o funk cresceu dividindo o mesmo beco com o crime organizado.

O jogo ficou evidente na semana passada. A prisão de MC Poze do Rodo e MC Ryan SP na Operação Narco Fluxo escancarou a linha tênue que separa palco de facção. A Polícia Federal fala em esquema de lavagem de R$ 1,6 bilhão com criptomoedas, 39 prisões temporárias em 8 estados, 200 agentes mobilizados. A investigação aponta shows em áreas dominadas pelo Comando Vermelho, vídeos com fuzis ao fundo e transações financeiras que usam o funk como fachada para ocultar origem ilícita. Quando o cachê vira transporte de dinheiro vivo e a live vira prestação de contas, já não se sabe onde termina a música e começa o “jogo” — e esse jogo tem dono, tem fuzil e tem código penal.

Os números assustam porque revelam escala: R$ 1,6 bilhão equivale a US$ 320 milhões, mais que o volume mensal de muitas corretoras legais. É grana que compra estúdio, clipe em Dubai, mas também compra silêncio, compra território, compra menino de 14 anos para ser soldado. O funk, que deveria ser rota de fuga da pobreza, vira às vezes rota de entrada para o crime, porque foi o único que ofereceu microfone e esperança onde escola e emprego falharam. O Estado só aparece para prender, nunca para prevenir. Aí a batida 150 BPM compete com o tiro de fuzil para ver quem define a trilha da comunidade.

O debate rasga a cultura ao meio. De um lado, criminalizar o funk é criminalizar a favela, é repetir o século 20 quando samba era caso de polícia. De outro, fechar os olhos para a instrumentalização do ritmo pelo tráfico é romantizar a morte. A letra que relata a realidade vira, em inquérito, “apologia ao crime”. O artista que cresceu vendo o varejo do pó vira réu por cantar o que viveu. E entre a arte e o BO, quem decide é o delegado, não o Spotify. Nessa zona cinzenta, a régua moral é elástica: para branco de classe média, é “expressão artística”; para preto de favela, é “vínculo com facção”.

A pior parte é previsível: as principais vítimas, as que pagam o preço mais alto, serão sempre as mesmas. São os meninos pretos e periféricos que perdem o ídolo para a cadeia ou para o caixão. São as mães pretas que enterram filho no mesmo baile onde ele sonhou ser MC. São as meninas pretas que veem o funk como único passaporte de ascensão e descobrem que o visto pode ser algema. O crime lucra, a indústria lucra, o Estado faz coletiva. E o corpo negro, mais uma vez, é o campo onde o funk, o jogo e a bala se encontram. Enquanto a batida salvar e matar ao mesmo tempo, o Brasil seguirá dançando sobre um barril de pólvora — e chamando isso de cultura.

O conteúdo O Funk, o Jogo e o Negro aparece primeiro em Revista Raça Brasil.