Profissionais negros precisam de mais qualificação para chegar à gestão escolar, aponta pesquisa

Estudo revela que coordenadores pedagógicos negros têm, em sua totalidade, mestrado ou doutorado, mas ainda ocupam minoria dos cargos de liderança na rede estadual

Profissionais negros precisam de mais qualificação para chegar à gestão escolar, aponta pesquisa

Por Catiane Pereira

Mesmo com níveis mais altos de formação acadêmica, profissionais negros seguem sub-representadas/os em cargos de gestão nas escolas públicas. É o que revela uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação Profissional em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que aponta a exigência de uma qualificação superior para que pessoas negras acessem funções de coordenação pedagógica.

De acordo com o estudo, 100% das pessoas coordenadoras pedagógicas autodeclaradas negras possuem títulos de mestrado ou doutorado. Entre profissionais brancas, no entanto, a maioria ocupa o mesmo cargo com formação em nível de especialização. Ainda assim, as pessoas negras representam apenas 18,2% das funções de gestão, enquanto pessoas brancas concentram 59,1% desses postos.

A pesquisa, intitulada “Articulação da educação antirracista pela coordenação pedagógica em escolas da rede estadual de ensino do Espírito Santo”, foi desenvolvida pelo pesquisador Josimar Nunes, sob orientação da professora Rosemeire Brito. O trabalho analisou escolas vinculadas à Superintendência Regional de Educação (SRE) de Cariacica (ES), que abrange também os municípios de Santa Leopoldina (ES), Viana (ES) e Marechal Floriano (ES).

Para Nunes, os dados evidenciam a presença de barreiras estruturais no acesso à gestão escolar. “Tal cenário reforça as discussões sobre o racismo institucional, dificultando a ascensão de profissionais negros a espaços de decisão e gestão, independentemente de seu preparo acadêmico”, afirma.

Coordenação como espaço estratégico

O estudo destaca que a coordenação pedagógica ocupa papel central no funcionamento das escolas, sendo responsável pela articulação dos processos formativos. Nesse contexto, a presença de profissionais comprometidos com a pauta antirracista é vista como essencial para a implementação da Educação das Relações Étnico-Raciais (Erer).

Durante o período da pesquisa de campo, entre junho e agosto de 2025, a regional de Cariacica atendia 27 unidades da rede estadual, com mais de 13 mil matrículas.

Negacionismo e entraves no cotidiano escolar

Além da desigualdade no acesso aos cargos, a pesquisa aponta a existência de um “negacionismo” interno nas escolas. Quase um terço das pessoas participantes (27,3%) não acredita que o racismo contribua para a evasão escolar, enquanto 18,1% afirmam que o problema não está presente no currículo ou nas práticas pedagógicas.

Segundo Nunes, essa “cegueira racial” dificulta o enfrentamento do problema. “Se o racismo não é reconhecido, não há por que haver políticas ou ações para combatê-lo”, diz.

O pesquisador também chama atenção para o impacto de modelos de gestão baseados em metas administrativas e demandas burocráticas. Essa lógica, segundo ele, reduz o tempo dedicado à formação pedagógica e ao debate de temas sociais. “As escolas são submetidas a um cotidiano de trabalho exaustivo, na medida em que a maioria das demandas chega revestida de caráter emergencial”, afirma.

Como desdobramento da pesquisa, foi elaborado o material “Coordenação pedagógica e educação antirracista: subsídios formativos para a implementação da Lei 10.639/2003”.  O conteúdo busca apoiar a formação de equipes escolares e ampliar o diálogo com a comunidade.

Para Nunes, é fundamental que o Estado avance para além da formalidade legal e assegure condições concretas para a aplicação dessas políticas, com orçamento específico e equipes capacitadas. “A luta antirracista necessita ser contínua e compromissada com a construção de um modelo de sociedade que entenda nossas diferenças como algo que nos faz únicos”, conclui.

A pesquisa e o desenvolvimento do material contaram com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).