Aqui nasceu Nha Nácia Gomi
Não consta, pelo menos que eu saiba, que me corra nas veias alguma costela Horta; contudo, não me sentia em território de estranhos, porque sabia que por ali havia família, parentes chegados, outros por afinidade, embora muitos já andassem espalhados pelas cidades e pela emigração, essa grande ventania que arranca os filhos da terra e os semeia pelo mundo.Foi em Chão de Horta que iniciámos a subida para Mato Curral, tomando depois a trilha estreita e labiríntica em direção a Mato Dentro. Atravessámos a ladeira para falar mantenha a um velho solitário, homem de cem anos ou perto disso, desses que já não contam a idade pelos calendários, mas pelas secas, pelas chuvas, pelas colheitas boas e más e pelos entes queridos que sobreviveram ou ficaram pelo caminho, porque chega uma altura da vida em que o tempo deixa de ser número e passa a ser apenas memória acumulada. Ele fora duas vezes a São Tomé e Príncipe, viagem que naquele tempo equivalia quase a atravessar o fim do mundo, e regressara para contar, porque há homens que viajam para voltar e transformar o vivido em histórias.Encontrámo-lo sozinho em casa, sentado como quem guarda o silêncio e a memória. Convidou-nos a entrar com um gesto lento da mão, daqueles gestos antigos em que ainda cabe hospitalidade, e disse que ficássemos para ouvir mais histórias, porque tinha muitas, e das boas, acrescentou com um brilho nos olhos de quem conhece o peso do vivido e receia que ninguém mais queira escutar. Mas nós tínhamos ainda caminho pela frente e o dia começava já a endurecer sob o sol. Apontámos então para o alto da ribanceira, para a casa da velha octogenária, pintada de azul, com a varanda vermelhada rompendo a paisagem, em todo o seu esplendor, e dissemos que era para lá que seguíamos.As chuvas torrenciais de novembro passado haviam rasgado as montanhas sem piedade, provocando deslizamentos de terra, derrubando árvores, cortando caminhos vicinais, e por isso subir o monte tornava-se tarefa ainda mais custosa. Caminhávamos sem saber ao certo em que estado encontraríamos a trilha, se o caminho ainda existia ou se teria sido engolido pela enxurrada, porque nas ilhas, como na vida, há veredas que desaparecem de um dia para o outro e só continuam para quem guarda delas a memória.Quando finalmente chegámos ao cimo da ribanceira, parámos como quem chega ao fim de uma pequena travessia do mundo. Bebemos uma grande caneca de água da fonte, dessas que parecem devolver o corpo à vida, e descansámos à sombra da varanda enquanto o peito retomava o seu ritmo. Em redor, a paisagem abria-se luxuriante, montanhas bafejadas pela claridade do dia e pelo silêncio antigo das alturas, como se ali a terra tivesse decidido mostrar-se mais generosa do que no resto da ilha de Santiago, oferecendo à vista um excesso de beleza que quase constrangia, tão intacto parecia aquele pedaço de mundo suspenso entre o céu e os abismos.A velha não nascera naquele lugar, na cabeceira da ribeira de Principal, nessa encosta côncava da Serra de Malagueta, onde a terra parece abrir-se ao céu em forma de uma concha. Fora levada para ali pelo marido, como tantas mulheres que trocavam o chão da infância pelo destino do homem com quem passavam a partilhar a vida, e agora vivia sozinha naquele molho de casas nas alturas, entregue à companhia do vento, das árvores, dos pássaros e da memória dos afetos de outrora. A fileira de meia dúzia de casas permanece quase inteiramente vazia, um pequeno povoado suspenso entre a resistência e o abandono. Habitada estava apenas a casa onde ela dormia; outra servia-lhe de arrecadação, outra de cozinha. As restantes mantinham-se mudas e sem gente, portas fechadas sobre ausências prolongadas, famílias partidas para longe, ou recolhidas já à eternidade.Na extremidade voltada para a Serra de Malagueta resiste uma casa em ruínas, de paredes gastas pelo tempo e pelo vento. Foi ali que nasceu Nha Nácia Gomi, a 18 de julho de 1925, e de onde partiu, aos 36 anos, para casar com Paulino de Oliveira, na Ribeira Seca. Mais do que vestígio de uma vida, aquela casa é testemunho silencioso de um mundo rural que se vai despovoando, deixando para trás telhados caídos, caminhos esquecidos e memórias guardadas apenas pelos mais velhos. Num tempo em que Cabo Verde desperta crescente interesse pelo ecoturismo e pelas caminhadas na natureza, lugares como este merecem ser redescobertos e valorizados, não apenas pela paisagem, mas pela história que ainda conservam.A velha anfitriã falou-nos dos milhares de turistas que, ao longo do ano, percorrem a encosta como se a conhecessem de cor, contou-nos também das viagens que fizera ao estrangeiro e de como, apesar de tudo o que vira além‑fronteiras, só ali se sentia em casa. E depois, sem cerimónia, ofereceu-nos o almoço. Comi e lambi os beiços sem vergonha nenhuma, como fazia nos tempos de infância, quando a comida tinha alma e o ato de comer era mais do que saciar a fome, era também uma forma de pertença ao mundo, de reconhecimento da terra e de quem a
Não consta, pelo menos que eu saiba, que me corra nas veias alguma costela Horta; contudo, não me sentia em território de estranhos, porque sabia que por ali havia família, parentes chegados, outros por afinidade, embora muitos já andassem espalhados pelas cidades e pela emigração, essa grande ventania que arranca os filhos da terra e os semeia pelo mundo.
Foi em Chão de Horta que iniciámos a subida para Mato Curral, tomando depois a trilha estreita e labiríntica em direção a Mato Dentro. Atravessámos a ladeira para falar mantenha a um velho solitário, homem de cem anos ou perto disso, desses que já não contam a idade pelos calendários, mas pelas secas, pelas chuvas, pelas colheitas boas e más e pelos entes queridos que sobreviveram ou ficaram pelo caminho, porque chega uma altura da vida em que o tempo deixa de ser número e passa a ser apenas memória acumulada. Ele fora duas vezes a São Tomé e Príncipe, viagem que naquele tempo equivalia quase a atravessar o fim do mundo, e regressara para contar, porque há homens que viajam para voltar e transformar o vivido em histórias.
Encontrámo-lo sozinho em casa, sentado como quem guarda o silêncio e a memória. Convidou-nos a entrar com um gesto lento da mão, daqueles gestos antigos em que ainda cabe hospitalidade, e disse que ficássemos para ouvir mais histórias, porque tinha muitas, e das boas, acrescentou com um brilho nos olhos de quem conhece o peso do vivido e receia que ninguém mais queira escutar. Mas nós tínhamos ainda caminho pela frente e o dia começava já a endurecer sob o sol. Apontámos então para o alto da ribanceira, para a casa da velha octogenária, pintada de azul, com a varanda vermelhada rompendo a paisagem, em todo o seu esplendor, e dissemos que era para lá que seguíamos.
As chuvas torrenciais de novembro passado haviam rasgado as montanhas sem piedade, provocando deslizamentos de terra, derrubando árvores, cortando caminhos vicinais, e por isso subir o monte tornava-se tarefa ainda mais custosa. Caminhávamos sem saber ao certo em que estado encontraríamos a trilha, se o caminho ainda existia ou se teria sido engolido pela enxurrada, porque nas ilhas, como na vida, há veredas que desaparecem de um dia para o outro e só continuam para quem guarda delas a memória.
Quando finalmente chegámos ao cimo da ribanceira, parámos como quem chega ao fim de uma pequena travessia do mundo. Bebemos uma grande caneca de água da fonte, dessas que parecem devolver o corpo à vida, e descansámos à sombra da varanda enquanto o peito retomava o seu ritmo. Em redor, a paisagem abria-se luxuriante, montanhas bafejadas pela claridade do dia e pelo silêncio antigo das alturas, como se ali a terra tivesse decidido mostrar-se mais generosa do que no resto da ilha de Santiago, oferecendo à vista um excesso de beleza que quase constrangia, tão intacto parecia aquele pedaço de mundo suspenso entre o céu e os abismos.
A velha não nascera naquele lugar, na cabeceira da ribeira de Principal, nessa encosta côncava da Serra de Malagueta, onde a terra parece abrir-se ao céu em forma de uma concha. Fora levada para ali pelo marido, como tantas mulheres que trocavam o chão da infância pelo destino do homem com quem passavam a partilhar a vida, e agora vivia sozinha naquele molho de casas nas alturas, entregue à companhia do vento, das árvores, dos pássaros e da memória dos afetos de outrora. A fileira de meia dúzia de casas permanece quase inteiramente vazia, um pequeno povoado suspenso entre a resistência e o abandono. Habitada estava apenas a casa onde ela dormia; outra servia-lhe de arrecadação, outra de cozinha. As restantes mantinham-se mudas e sem gente, portas fechadas sobre ausências prolongadas, famílias partidas para longe, ou recolhidas já à eternidade.
Na extremidade voltada para a Serra de Malagueta resiste uma casa em ruínas, de paredes gastas pelo tempo e pelo vento. Foi ali que nasceu Nha Nácia Gomi, a 18 de julho de 1925, e de onde partiu, aos 36 anos, para casar com Paulino de Oliveira, na Ribeira Seca. Mais do que vestígio de uma vida, aquela casa é testemunho silencioso de um mundo rural que se vai despovoando, deixando para trás telhados caídos, caminhos esquecidos e memórias guardadas apenas pelos mais velhos. Num tempo em que Cabo Verde desperta crescente interesse pelo ecoturismo e pelas caminhadas na natureza, lugares como este merecem ser redescobertos e valorizados, não apenas pela paisagem, mas pela história que ainda conservam.
A velha anfitriã falou-nos dos milhares de turistas que, ao longo do ano, percorrem a encosta como se a conhecessem de cor, contou-nos também das viagens que fizera ao estrangeiro e de como, apesar de tudo o que vira além‑fronteiras, só ali se sentia em casa. E depois, sem cerimónia, ofereceu-nos o almoço. Comi e lambi os beiços sem vergonha nenhuma, como fazia nos tempos de infância, quando a comida tinha alma e o ato de comer era mais do que saciar a fome, era também uma forma de pertença ao mundo, de reconhecimento da terra e de quem a trabalha, e por instantes pareceu-me que o tempo tinha recuado apenas o suficiente para me devolver um gesto familiar que eu julgava perdido. Aquele nbonji não se encontra em qualquer fogão de cidade, nem em cozinha de gente apressada. Havia naquele prato temperos ancestrais, desses que moram escondidos no fundo da panela e só despertam quando encontram o paladar de quem tem memória gastronómica.
O caldo vinha grosso e perfumado, subindo no ar com cheiro de lenha acesa, alho de terra esmagado e cebola cortada miudinha por mãos pacientes. Bastou a primeira colherada para alguma coisa estremecer dentro de mim, remexendo lembranças como quem revolve terra para encontrar raiz esquecida. Era um sabor conhecido, guardado algures entre a infância e a saudade. Levei outra colher à boca e senti o coração tropeçar no passado. Eu não conseguia dizer de onde vinha tamanha memória gastronómica.
Na cidade, a gente acostuma-se depressa à comida sem história, feita às pressas, sem conversa de fogão, e até aos deliveries, esses alimentos que chegam já sem cheiro de casa. Mas aquele caldo não. Aquele caldo obrigava a parar. Tinha presença de gente antiga, de quintal molhado, de panela de tirna pendurada sobre o fogão de pedras. Foi então que lhe perguntei o que ela tinha colocado na comida. Ela sorriu devagar, como quem já esperava a pergunta. E naquele sorriso havia uma espécie de sabedoria tranquila, dessas mulheres que conhecem o segredo dos temperos e o segredo da infância adormecida dentro da gente. Sabia que eu reconhecia o sabor. Sabia também que fazia muito tempo que a minha boca não encontrava comida feita por mãos antigas. Continuei a comer, lambendo os beiços entre uma colherada e outra, enquanto a memória me levava de volta à infância. E percebi que certos sabores nunca desaparecem. Ficam escondidos dentro da gente, à espera de um caldo condimentado para acordarem outra vez.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283 de 01 de Julho de 2026.
