Gabz é a nova era das personagens negras na TV brasileira
A televisão brasileira tem uma dívida histórica com atrizes negras. Por décadas, coube a elas o lugar do silêncio, da empregada sem sobrenome, da vilã caricata ou da mocinha que só existia para sofrer. Quando Bela Campos decidiu abrir o jogo sobre o que viveu para dar vida à Maria de Fátima no remake de […] O conteúdo Gabz é a nova era das personagens negras na TV brasileira aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
A televisão brasileira tem uma dívida histórica com atrizes negras. Por décadas, coube a elas o lugar do silêncio, da empregada sem sobrenome, da vilã caricata ou da mocinha que só existia para sofrer. Quando Bela Campos decidiu abrir o jogo sobre o que viveu para dar vida à Maria de Fátima no remake de Vale Tudo, o país viu, mais uma vez, a régua. Parte da crítica branca duvidou antes do primeiro capítulo. Como já pontuei em artigos anteriores, no Brasil o negro precisa ser dez vezes melhor para ser tratado como igual. Bela provou em cena. E abriu caminho para que a conversa sobre cobrança desproporcional deixasse de ser sussurro de bastidor.
Com Gabz, o roteiro se repetiu, mas com outra dor. Em Mania de Você, sua Viola nasceu confusa: mulher marcada pelo sofrimento que depois buscava vingança, mas sem desenvolvimento, sem arco, sem respiro. Nos bastidores a leitura era unânime: papel limitado, trama que não evoluía. O público não comprou, e a atriz, mesmo com talento evidente, ficou presa num final melancólico. Foi cobrada ao extremo, como se a falha da dramaturgia fosse falha do seu corpo preto em cena. Viola não conseguiu mostrar tudo que Gabz tinha pra mostrar. E isso, para atrizes negras, quase sempre custa mais caro.
A diferença entre ontem e hoje é que Gabz não sumiu. Voltou. E a volta por cima tem nome: Coração Acelerado. Como Eduarda, ela encontrou o que Viola não teve: camadas, contradições, texto que cresce. Transita entre drama e leveza com a mesma verdade, e ainda canta — e canta muito. Detalhe que virou diferencial, especialmente quando comparada à mocinha de Isadora Cruz, que no quesito voz deixa a desejar. O público percebeu. Os bastidores cravaram: Gabz é um dos poucos acertos da trama. Se alguém duvidava do potencial, a dúvida foi atropelada pela entrega.
É impossível não pensar em linhagem. Lázaro Ramos e Taís Araújo reescreveram o horário nobre sem a guilhotina das redes sociais, mas com outras pedras no caminho. Antes deles, Ruth de Souza e Léa Garcia abriram portas em tempos em que nem o horário era nobre, nem o papel era protagonista. Gabz é herdeira dessa travessia. Mas é também ruptura: ela não pede licença para existir no centro da cena, no horário de maior audiência, com personagem complexa e amada. É a nova era porque não aceita ser exceção. Quer ser regra.
O que Gabz faz em Coração Acelerado é mais que atuação. É correção histórica em tempo real. Mostra que quando o texto é bom, quando há direção que confia e espaço para errar e acertar, a atriz negra não “se salva”: ela conduz. Eduarda não é símbolo. É gente. Ri, chora, desafina de propósito e afina quando quer. Tem desejo, ambição, erro e redenção. Exatamente o que atrizes brancas fazem há 70 anos na TV sem precisar de manifesto.
Por isso o título não é exagero: Gabz é a nova era dos personagens negros na TV. Não porque seja a primeira — Ruth, Léa, Taís e Lázaro pavimentaram a estrada. Mas porque chega num momento em que a audiência já não aceita menos. Porque transforma a desconfiança em aplauso e o papel confuso em virada de carreira. Porque prova, de novo, que talento preto não falta. Falta oportunidade à altura. E quando a oportunidade vem, como agora, o Brasil inteiro muda de canal para ver uma mulher negra brilhar sem pedir desculpa. Isso é revolução. Isso é Gabz.
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