Sandra Inês Cruz, investigadora e jornalista - “Tarrafal ainda está longe da memória que merece”
Participou no Simpósio Internacional sobre o Campo do Tarrafal. Como surgiu esse convite?Bom, o convite para participar no simpósio, embora tenha sido já numa fase tardia do processo de candidatura, foi para que eu viesse falar do último tempo do Tarrafal enquanto espaço de privação de liberdade. É um tempo que integra a minha tese de doutoramento como um dos esquecimentos construídos dentro do campo, e foi uma parte da investigação que eu isolei no livro que entretanto publiquei. Provavelmente por causa disso, ter-me-ão chamado para que pudesse contribuir com alguma informação sobre este último tempo.Como é que foi recebido o seu contributo?É certo que foi a única intervenção dissonante entre todas aquelas que ocuparam dois dias de comunicações, e é certo também que – assim me pareceu - foi a única que não foi recebida apenas como uma contribuição, mas também, de certa forma, como um ataque. Um ataque àquilo que há muito está estabelecido. Talvez por isso tenha sentido que as reações à minha intervenção se tenham assumido como defesa. Na verdade, não foi um ataque aquilo que eu fiz. Apenas apresentei factos, resultados da minha investigação. Parece-me que há efectivamente uma vontade de alargar a memória do Tarrafal em virtude deste processo de candidatura, mas continuo a sentir uma resistência bastante forte em relação a tudo aquilo - e não falo só do terceiro tempo - que traga ruído à narrativa que está construída. Não está em causa apenas a narrativa que diz respeito ao fim do campo, mas também à primeira fase do campo, à colónia penal de Cabo Verde, onde a maioria da população prisional era portuguesa. Também aí há muitas inverdades na narrativa, tanto cabo-verdiana como portuguesa. No fundo, por falta de contacto com os processos, com a documentação e com as fontes primárias. E por isso sinto que tudo o que eu possa trazer que vá diferir do discurso que foi construído é um obstáculo, um problema, e encontra fortes resistências.Foi necessário que, principalmente no simpósio, tenham surgido vários contributos, no sentido de termos um processo enriquecido para entregarmos à UNESCO...Eu não sou especialista, não me considero especialista, sou jornalista e tenho uma investigação académica sobre o Tarrafal que, obviamente- tendo eu trabalhado a memória e o esquecimento dentro da memória - se centra muito naquilo que são as faltas. As faltas, os erros, os enganos, os vazios na história do Tarrafal. Portanto, digamos que essa é a minha especialidade. Quanto ao mais, eu não sou museóloga, não sou historiadora, não sou arqueóloga, não tenho qualquer competência ao nível de candidaturas como muitas das pessoas que estiveram presentes e que têm já experiência em processos destes. Portanto, o meu contributo apenas pode ser o de alguém que está habituado a levantar factos e a apoiar-se nas várias fontes a que tem acesso, sejam elas orais (que acho que é algo que deveria ser ainda mais desenvolvido no que diz respeito à preservação da memória do Tarrafal), sejam fontes documentais. E isso eu fiz, sei o que fiz e tenho documentos que posso partilhar.Quer com isto dizer que os factos que apresentou não foram bem aceites?Como estava a dizer-lhe, o que eu acho é que os documentos que eu possa apresentar, por mexerem naquilo que foi construído e consolidado ao longo de muitos anos, não têm a validade que têm outros discursos, mesmo que não sejam apoiados em documentos. Há variadíssimas publicações que conhecerá, tanto em Cabo Verde como em Portugal, que vão limando o discurso, naturalmente tirando tudo aquilo que são factos dissonantes, que atrapalham, que não condizem, que saem daquele espírito da oposição ao salazarismo, ao fascismo e ao colonialismo. Tudo o que não encaixa aqui foi deixado para trás. E, à conta de tanto se repetir um discurso, que é o discurso limado, o discurso conveniente, cria-se algo em que se acredita, mas que não é a verdade inteira. E, portanto, para tentarmos completar esta verdade, construída num tempo em que se queria evidenciar a denúncia da repressão salazarista e colonialista, temos de convocar outros nomes, outras datas, outras pessoas que ficaram de fora da história e da memória. Porquê?Se aquilo que se vai musealizar é um espaço prisional, eu, enquanto jornalista, não faço distinção entre os homens que ali estiveram. Tenho o maior respeito por todos aqueles que fizeram o seu percurso político sacrificando-se e à sua vida pessoal e familiar, pelo seu país, pela sua futura nação. Admiro muitíssimo todas essas pessoas, tenho relações de amizade com alguns dos combatentes e resistentes de Angola e de Cabo Verde mas, enquanto jornalista, não vejo que esses percursos impeçam outras existências, outras causas, outras histórias.Acha que, em Cabo Verde, depois de vários anos, continuamos a negar a História?Acho que, se em Portugal, o meu trabalho e aquilo que eu vim aqui dizer é apenas um contributo para se alargar a memória do campo, para se expandir a história do Tarrafal, em Cabo Verde não
Participou no Simpósio Internacional sobre o Campo do Tarrafal. Como surgiu esse convite?
Bom, o convite para participar no simpósio, embora tenha sido já numa fase tardia do processo de candidatura, foi para que eu viesse falar do último tempo do Tarrafal enquanto espaço de privação de liberdade. É um tempo que integra a minha tese de doutoramento como um dos esquecimentos construídos dentro do campo, e foi uma parte da investigação que eu isolei no livro que entretanto publiquei. Provavelmente por causa disso, ter-me-ão chamado para que pudesse contribuir com alguma informação sobre este último tempo.
Como é que foi recebido o seu contributo?
É certo que foi a única intervenção dissonante entre todas aquelas que ocuparam dois dias de comunicações, e é certo também que – assim me pareceu - foi a única que não foi recebida apenas como uma contribuição, mas também, de certa forma, como um ataque. Um ataque àquilo que há muito está estabelecido. Talvez por isso tenha sentido que as reações à minha intervenção se tenham assumido como defesa. Na verdade, não foi um ataque aquilo que eu fiz. Apenas apresentei factos, resultados da minha investigação. Parece-me que há efectivamente uma vontade de alargar a memória do Tarrafal em virtude deste processo de candidatura, mas continuo a sentir uma resistência bastante forte em relação a tudo aquilo - e não falo só do terceiro tempo - que traga ruído à narrativa que está construída. Não está em causa apenas a narrativa que diz respeito ao fim do campo, mas também à primeira fase do campo, à colónia penal de Cabo Verde, onde a maioria da população prisional era portuguesa. Também aí há muitas inverdades na narrativa, tanto cabo-verdiana como portuguesa. No fundo, por falta de contacto com os processos, com a documentação e com as fontes primárias. E por isso sinto que tudo o que eu possa trazer que vá diferir do discurso que foi construído é um obstáculo, um problema, e encontra fortes resistências.
Foi necessário que, principalmente no simpósio, tenham surgido vários contributos, no sentido de termos um processo enriquecido para entregarmos à UNESCO...
Eu não sou especialista, não me considero especialista, sou jornalista e tenho uma investigação académica sobre o Tarrafal que, obviamente- tendo eu trabalhado a memória e o esquecimento dentro da memória - se centra muito naquilo que são as faltas. As faltas, os erros, os enganos, os vazios na história do Tarrafal. Portanto, digamos que essa é a minha especialidade. Quanto ao mais, eu não sou museóloga, não sou historiadora, não sou arqueóloga, não tenho qualquer competência ao nível de candidaturas como muitas das pessoas que estiveram presentes e que têm já experiência em processos destes. Portanto, o meu contributo apenas pode ser o de alguém que está habituado a levantar factos e a apoiar-se nas várias fontes a que tem acesso, sejam elas orais (que acho que é algo que deveria ser ainda mais desenvolvido no que diz respeito à preservação da memória do Tarrafal), sejam fontes documentais. E isso eu fiz, sei o que fiz e tenho documentos que posso partilhar.
Quer com isto dizer que os factos que apresentou não foram bem aceites?
Como estava a dizer-lhe, o que eu acho é que os documentos que eu possa apresentar, por mexerem naquilo que foi construído e consolidado ao longo de muitos anos, não têm a validade que têm outros discursos, mesmo que não sejam apoiados em documentos. Há variadíssimas publicações que conhecerá, tanto em Cabo Verde como em Portugal, que vão limando o discurso, naturalmente tirando tudo aquilo que são factos dissonantes, que atrapalham, que não condizem, que saem daquele espírito da oposição ao salazarismo, ao fascismo e ao colonialismo. Tudo o que não encaixa aqui foi deixado para trás. E, à conta de tanto se repetir um discurso, que é o discurso limado, o discurso conveniente, cria-se algo em que se acredita, mas que não é a verdade inteira. E, portanto, para tentarmos completar esta verdade, construída num tempo em que se queria evidenciar a denúncia da repressão salazarista e colonialista, temos de convocar outros nomes, outras datas, outras pessoas que ficaram de fora da história e da memória.
Porquê?
Se aquilo que se vai musealizar é um espaço prisional, eu, enquanto jornalista, não faço distinção entre os homens que ali estiveram. Tenho o maior respeito por todos aqueles que fizeram o seu percurso político sacrificando-se e à sua vida pessoal e familiar, pelo seu país, pela sua futura nação. Admiro muitíssimo todas essas pessoas, tenho relações de amizade com alguns dos combatentes e resistentes de Angola e de Cabo Verde mas, enquanto jornalista, não vejo que esses percursos impeçam outras existências, outras causas, outras histórias.
Acha que, em Cabo Verde, depois de vários anos, continuamos a negar a História?
Acho que, se em Portugal, o meu trabalho e aquilo que eu vim aqui dizer é apenas um contributo para se alargar a memória do campo, para se expandir a história do Tarrafal, em Cabo Verde não é. Em Cabo Verde o resultado da minha investigação é entendido como discurso político. E eu estou fora desse âmbito. Vim cá como “advogada do Diabo”, bem sei, mas eu não defendo ninguém, não defendo uns homens mais do que outros. Aliás, tive a oportunidade de o dizer na minha comunicação, entre os presos portugueses há muitos homens que, de resistentes e opositores ao Estado Novo, têm pouco. E eu nunca vejo isso questionado por ninguém. Quando se entra no campo, há uma lona do lado esquerdo com os nomes de todos os presos portugueses (faltam 2) e também dos mortos do Tarrafal. Nunca vi alguém questionar a legitimidade da memorialização daqueles homens. Muitos deles, nós conhecemos e sabemos que tiveram percursos políticos louváveis e duradouros, mas ali no meio estão muitos nomes que nunca ninguém procurou conhecer realmente. Há homens que estão ali porque são ladrões de galinhas, outros assaltaram caixas de esmolas em igrejas portuguesas, outros roubaram porcos, outros mataram pessoas, outros eram vigaristas, vagabundos, bêbados, desordeiros. Havia agentes da PIDE presos ao lado de comunistas. Nunca ninguém questionou isso, nunca ninguém os tirou dos murais, nunca ninguém os excluiu das homenagens ou os separou, dizendo: estes não contam. Portanto, porque é que se há de fazer isso relativamente a outros tempos, a outros homens?
Por outro lado, como eu dizia há pouco, há variadíssimas publicações, mesmo em Cabo Verde, que, dedicando-se ao tempo do campo de trabalho de Chão Bom, param no dia 1 de Maio de 1974, como nós sempre vimos. Quando falam dos homens que vieram depois, o que é raríssimo, falam sempre das suas ligações à PIDE. Eu não vejo nunca, em nenhuma dessas publicações, evidências, provas, documentos que validem esta posição. E, no entanto, quando nestes dois dias de simpósio fui confrontada com um placar que, pela primeira vez, inclui o último tempo da prisão, percebi que o cartaz não deixa de mencionar a ligação de alguns homens à PIDE. Eu pergunto: isto é história isenta? Isto é imparcialidade?
Por que razões narrativas que se consolidaram ao longo do tempo, muitas vezes transmitidas oralmente e reproduzidas em publicações sucessivas, parecem merecer maior credibilidade do que conclusões sustentadas por investigação documental e por fontes arquivísticas?
Eu não sou historiadora, mas havia ali muitos historiadores. Eu, como jornalista, posso participar na investigação que desoculta os factos com que depois se pode fazer a historiografia. Obviamente que não sou eu que vou fazê-la. Agora, se há provas de que isso aconteceu, se calhar deviam ser expostas por quem o afirma. Tenham atenção que, ainda que houvesse essas provas, isso não faz com que estes homens deixem de pertencer à história do Tarrafal, como pertenceram os outros que foram da PIDE e que estiveram lá no primeiro tempo. A minha questão é: porque é que se validam mais as “verdades” que correram de boca em boca, que foram publicadas e reproduzidas até ao infinito, fixadas apenas por questões ideológicas e partidárias? Porque é que isso tem mais força do que os resultados de investigações apartidárias? Eu nem cabo-verdiana sou. O meu trabalho não pode ser entendido como tendo o cunho político que eu sinto que sempre lhe atribuem.
Em relação aos últimos presos do Tarrafal, procurei, apesar de tudo, evidências de que alguns pudessem ter tido ligações à PIDE. No fundo arquivístico em que deveriam estar esses registos, e que é a comissão de extinção da própria PIDE-DGS, não existe nada, a não ser os pedidos de alguns deles de uma certidão que ateste a sua não relação com a polícia política. Para quê? Para poderem mostrar às famílias e aos amigos e provarem que não tinham nada a ver com as acusações que lhes haviam sido feitas. Em todos os casos, essa certidão foi passada. Porque é que isto não tem validade ao lado de afirmações que continuam a fazer circular suspeições sem que as possam fundamentar? Por isso é que eu digo: acho que há uma resistência, que é apenas política, à integração de variadíssimas verdades que não estão ainda na narrativa museológica e que não sei se vão estar.
E, para termos uma candidatura consistente, temos de ter toda a informação bem contada, com documentos onde podemos provar o que realmente se passou...
Têm, e o facto de ter estado aqui uma comunidade internacional quer dizer que Cabo Verde aceita ser ajudado e, ao mesmo tempo, assessorado por uma comunidade internacional que está fora das dinâmicas políticas internas. Agora, eu não sou técnica, como já disse, não tenho quaisquer competências na patrimonialização de um lugar e fico um pouco confusa e desconfortável quando me dizem que não é oportuno corrigir a cronologia do campo, uma vez que isso pode pôr em risco o processo que já está em curso. Portanto, eu não sei em que fase é que vai poder fazer-se algum acerto de informação relativamente ao que está. Tenho algum receio de que não seja já possível integrar contributos que serviriam uma musealização mais próxima da integralidade do campo.
Se o simpósio é um contributo à candidatura, porque não clarificar tudo com datas, para depois ter tudo pronto e entregar à UNESCO...
Pois, mas eu repito - não sou técnica. E, pelo que disseram, isso não é aconselhável. Não é o momento. Portanto, agora vão reunir-se os contributos pertinentes de todos os conferencistas que serão integrados num documento final. Depois, haverá que validá-lo para que seja submetido à UNESCO. Eu, como portuguesa - e não falo como jornalista nem como investigadora, mas como cidadã portuguesa - gostava que, por exemplo, o tempo da colónia penal de Cabo Verde aparecesse balizado, não por datas políticas, mas por datas reais, por datas legais.
Porquê?
Porque o que é sempre considerado na cronologia é apenas o último preso político. E, na verdade, gostava de perguntar a Cabo Verde porque é que naquele painel de presos políticos que está no campo há três presos de delito comum. Poucos saberão quem eles são, imagino. E porque é que eles estão lá? Porque são, na verdade, presos políticos. E ficam no Tarrafal quando vêm embora os outros. E porque é que eles não entram na história? Alguém sabe? Se calhar não investigaram os processos deles. Se calhar não sabem quem são, mas estão ao pé dos outros. São estes pequenos acertos que eu acho que falta fazer, como, de resto, em relação aos mortos. Há um memorial no campo com 32 mortos na colónia penal de Cabo Verde que, depois do 25 de Abril, são trasladados para Lisboa, com honras de Estado, cabo-verdianas e portuguesas. Eu pergunto: mais de meio século depois, ainda não passou tempo suficiente para nós aceitarmos os outros mortos que não eram considerados presos políticos? É que há outros dois portugueses que morreram no campo. Um até foi assassinado pelos guardas. Foi morto a tiro. Isso está largamente documentado em processos que consultei. Falei até com a família desse senhor. Esse homem não teve direito a uma cruz no cemitério. A minha questão é: não devemos contabilizar estes mortos hoje? Porquê? Não são presos políticos? Não. Se fizermos uma história do comunismo ou do anarquismo dentro do campo, estes 2 homens não entrarão. Mas se fizermos uma história da repressão salazarista no Tarrafal, estes homens são, como os outros, vítimas do Estado Novo. Mas eles não entram na história. São estes pequenos acertos que ficam em suspenso. Será que vai haver uma fase em que possamos dar esses pequenos contributos para alargar um pouco a memória da prisão?
Eu acho que isto não vai tirar valor à história do campo. Não vai fazer com que o campo deixe de ser um lugar de resistência, um lugar de combatentes. Não. O correto será dizer que, além da prisão dos resistentes, o Tarrafal foi outras coisas mais. Teve outras pessoas. Agregou outras histórias que também caracterizam o Portugal salazarista, ditatorial. A condenação da pobreza, por exemplo – os homens indesejáveis porque estavam na rua a pedir esmola. Isto ajuda a caracterizar o Estado Novo, não é? É importante para a história.
Acredita que ainda existe resistência à inclusão de novas perspectivas na narrativa histórica do Campo do Tarrafal?
Acredito que depois, na construção da narrativa museológica, se poderão preencher algumas falhas que ainda existem no plano atual. Quero acreditar que vai haver lugar para isso. Neste momento ainda sinto uma resistência grande a certos factos e nestes dias pude ouvir algumas conversas de corredor que se manifestavam bastante discordantes de tudo quanto disse na minha comunicação. Ouvi, por exemplo, dizer que “estão a tentar branquear os traidores”. Estranhei também o facto de, após dois dias de simpósio, depois da minha comunicação, um representante da Câmara Municipal do Tarrafal dizer que havia alguma confusão de datas, que era preciso realmente clarificar a cronologia, porque até lhe tinha parecido que se falou de outros presos e de outros tempos... que não se percebia bem. Ora, não quero acreditar que isto seja desprezo pela história. Só posso entender tal comentário como falta de atenção.
Houve uma certa dissonância na apresentação dos factos?
Acho que também os participantes portugueses que estiveram no simpósio ficaram um tanto admirados com os factos relativos ao tempo que eu fui apresentar. Em Portugal não se fala desta outra prisão. Como a maioria dos últimos presos era cabo-verdiana, o assunto ficou pelo caminho e nunca ninguém lhe deu grande atenção. Mas julgo que, na lógica portuguesa, isto é apenas outra memória para se juntar à história. Mas como dizia, em Cabo Verde, eu nunca sinto que isto seja outra memória. É sempre uma espécie de contramemória. Há sempre latente um conflito de memórias. E não tem que haver. A não ser que ainda não tenha realmente passado o tempo suficiente de vivência democrática para que se aceite a convivência de múltiplas verdades. Mas isso já é um problema de Cabo Verde.
Ter factos corrigidos neste simpósio não seria o ideal?
Por isso é que, como dizia, enquanto portuguesa, gostava de ver alguns parâmetros melhorados, porque, na verdade, há alguns equívocos. Gostava de ver a memória alargada, incluindo e abrangendo pessoas que foram deixadas de fora. Histórias que nunca se contaram, mas que fazem do Tarrafal um campo muito mais excepcional do que aquilo que já se sabe que foi. Por exemplo, nunca ninguém fala dos cabo-verdianos que também estiveram presos na primeira fase. A Colónia Penal de Cabo Verde teve dois cabo-verdianos presos dentro do campo e quatro cabo-verdianos presos fora do campo. E isto de haver presos fora do campo não é uma excepção. Nos anos 40, há uma série de homens que vêm acusados de espionagem, que são os homens da “Rede Shell” (é assim que é conhecido o processo) e que ficam presos fora do campo.
Depois há um processo gigante, que está na Torre do Tombo, em Portugal (são 8 volumes) que é um processo de abandono do trabalho. Entre os muitos homens que o integram, 29 são embarcados para Cabo Verde sem acusação, sem passarem por outras prisões, simplesmente para não estarem em contacto com a ideologia comunista. Chegam ao campo com um ofício endereçado à direção da Colónia Penal, pedindo que não sejam misturados com os outros presos. Ficam privados de liberdade, mas fora do campo. Portanto, há uma série de estruturas fora dos muros, que agora até estão a ser contempladas em escavações e trabalhos arqueológicos, que terão albergado muitos destes reclusos em condições de prisão diferentes.
No processo de candidatura os documentos são todos válidos, certo?
Eu percebo que, num processo de candidatura como este, que será muito rigoroso e que mantém as pessoas focadas em critérios, em atributos, em decretos, em formulários, etc., a grande preocupação, e que me parece que é prioritária, é obedecer à parte burocrática, formal, da questão. E sinto que as dissonâncias, as excepções – pelo menos nesta fase - atrapalham mais do que enriquecem. Agora o que se entender ser pertinente vai ser submetido à UNESCO. Depois, quando for a altura certa, o Instituto do Património Cultural começará, julgo eu, a pensar mais seriamente no discurso museológico. E aí – espero - algumas destas coisas hão de ter o seu lugar, encontrado de forma neutral e independente.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283 de 01 de Julho de 2026.
