Com o veto de Messias pode haver uma chave para uma mulher negra?

A recusa do Senado a Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira expôs mais que uma derrota pontual do Planalto. Expôs o preço da governabilidade em 2026. A Casa não vetou só um nome técnico: vetou um cálculo político que já não entregava votos suficientes nem simbolismo capaz de blindar o governo do […] O conteúdo Com o veto de Messias pode haver uma chave para uma mulher negra? aparece primeiro em Revista Raça Brasil.

Com o veto de Messias pode haver uma chave para uma mulher negra?

A recusa do Senado a Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira expôs mais que uma derrota pontual do Planalto. Expôs o preço da governabilidade em 2026. A Casa não vetou só um nome técnico: vetou um cálculo político que já não entregava votos suficientes nem simbolismo capaz de blindar o governo do desgaste. Ao travar a sabatina, o Senado lembrou que a Corte é extensão do tabuleiro eleitoral, e que cada cadeira vaga vale como moeda de troca quando a reeleição de deputados e de um terço dos senadores entra no radar. Messias caiu porque representava a continuidade de um acordo que o Congresso já considera caro demais para manter.

Com a vaga reaberta, o Supremo volta ao centro da disputa republicana e escancara a anomalia histórica que o país naturalizou. Em 135 anos, três mulheres ocuparam o STF e nenhuma delas era negra, num país onde 56% da população se declara preta ou parda.

A Corte que decide sobre racismo estrutural, letalidade policial, cotas, encarceramento e direitos quilombolas julga sem a vivência de quem mais sofre os efeitos dessas decisões. A recusa a Messias, portanto, não cria apenas um problema para o governo. Cria uma oportunidade de corrigir um déficit de representação que contamina a legitimidade do tribunal perante a maioria da população.

O ano eleitoral dá contornos pragmáticos a essa oportunidade. Em disputa acirrada, o voto negro não é segmento: é fiel da balança. Indicar uma jurista negra não é gesto, é aritmética. A posse de um nome como Lívia Sant’Anna Vaz, Adriana Cruz ou Thula Pires rende palanque em cada território onde o Estado chega fardado e sai sem política pública. Para um Congresso que precisa renovar seus quadros e para um governo que precisa reencantar bases, o custo de manter o STF monocromático supera, pela primeira vez, o custo de enfrentar resistências corporativas. O Centrão sabe contar. O Planalto também.

Chamar isso de oportunismo é ignorar que toda indicação ao Supremo carrega componente político. A diferença é que, agora, o componente político pode coincidir com reparação. Não falta currículo: há defensoras públicas, procuradoras, professoras e advogadas com produção acadêmica e atuação em cortes superiores que preenchem qualquer requisito de “notório saber”. Falta decisão. O Senado, que barrou Messias alegando independência, terá de responder por que insiste em um tribunal que não reflete o país que legisla. Manter a exclusão em 2026 é assumir o risco de transformar independência em cumplicidade com privilégio.

A cadeira vazia deixou de ser problema do governo para virar teste de leitura histórica do Congresso. Se o Planalto e os líderes do Senado compreenderem que símbolo também é poder, a vaga pode se converter na principal jogada eleitoral dos próximos meses. Se preferirem repetir a lógica de sempre, entregarão a narrativa pronta à oposição e aos movimentos sociais: a de que, mesmo quando podem, escolhem não mudar. A recusa a Messias foi o primeiro lance. O segundo definirá se o Brasil terá um Supremo mais parecido com sua gente ou apenas um novo capítulo do mesmo acordo.

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