Tarrafal: a memória não pode ser contada pela metade

Na qualidade de familiares de cidadãos presos no Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975, vimos manifestar profunda preocupação e desagrado relativamente à omissão, no Documento Fundador do Museu da Resistência do Campo de Concentração do Tarrafal, da utilização daquele espaço prisional após o 25 de Abril de 1974.Reconhecemos plenamente a importância histórica, patrimonial e simbólica do Campo do Tarrafal enquanto lugar de memória da repressão colonial e da resistência antifascista. A preservação dessa memória constitui um dever coletivo para com as vítimas da opressão política e para com as futuras gerações. Contudo, a memória histórica não pode ser seletiva nem construída sobre silêncios convenientes. A reabertura do Tarrafal em dezembro de 1974 e a detenção de cidadãos cabo-verdianos naquele espaço até julho de 1975 constituem factos históricos que hoje se encontram documentados através de testemunhos, investigação académica e obras publicadas, incluindo estudos recentes dedicados especificamente a esse período. Segundo a investigação histórica recentemente publicada, dezenas de cidadãos caboverdianos foram detidos e enviados para o Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975, sem condenação judicial e, em muitos casos, sem que lhes tivesse sido formalmente comunicada qualquer acusação. Os testemunhos recolhidos descrevem detenções motivadas por divergências políticas, suspeitas de oposição ao processo político então em curso e alegadas ligações a movimentos considerados adversários. Os detidos permaneceram privados da liberdade num local cuja carga simbólica estava já profundamente associada à repressão política e à violação de direitos fundamentais. A investigação académica tem igualmente demonstrado que esta fase da história do Tarrafal permaneceu durante décadas praticamente ausente da memória oficial, dos estudos históricos dominantes e dos processos de valorização patrimonial do antigo campo, circunstância que motivou a designação de “campo do silêncio” atribuída a este período. É precisamente essa invisibilidade histórica que hoje preocupa os familiares dos antigos presos. A construção de um museu dedicado à resistência e à memória exige que todas as vítimas da repressão política associada àquele espaço sejam recordadas com igual dignidade, independentemente do contexto político em que ocorreram as respetivas detenções. A exclusão desta realidade do discurso museológico e institucional representa não apenas uma omissão histórica grave, mas também uma injustiça moral para com os homens que ali estiveram presos nesse período e para com as respetivas famílias. Um museu de memória, especialmente quando associado a valores universais de direitos humanos e quando apoiado ou reconhecido pela UNESCO, deve assentar nos princípios da verdade histórica, da integridade documental e da pluralidade da memória. Não pode existir hierarquização de vítimas nem apagamento de determinados períodos históricos por razões políticas, ideológicas ou narrativas. Ignorar os presos do Tarrafal entre 1974 e 1975 compromete a autenticidade histórica do próprio memorial e fragiliza a credibilidade internacional de qualquer processo de valorização patrimonial associado àquele espaço. A memória das vítimas não pode depender da conveniência política do momento histórico em que sofreram repressão. Assim, vimos, em conjunto e desta forma, respeitosamente solicitar: 1.O reconhecimento público e institucional da utilização do Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975; 2.A integração explícita desta fase histórica no discurso museológico e científico do Museu da Resistência do Tarrafal; 3.A inclusão da memória, testemunhos e identificação dos presos desse período nos conteúdos expositivos, documentais e pedagógicos do museu; 4.A garantia de que qualquer apoio, validação ou reconhecimento internacional associado ao memorial observe integralmente os princípios da verdade histórica, da integridade patrimonial e da memória inclusiva. A preservação da memória histórica exige coragem institucional para reconhecer toda a verdade, incluindo as partes mais incómodas da história. Não se pretende reescrever a história nem diminuir a relevância das anteriores fases do Campo do Tarrafal. Pretende-se apenas que a história seja contada por inteiro. Um lugar de memória só cumpre plenamente a sua missão quando reconhece todas as vítimas que por ele passaram e todos os períodos da sua existência historicamente documentados. O silêncio também pode ser uma forma de apagamento. Com elevada consideração remetemos a Vossas Excelências o nosso protesto na expectativa de que seja feita justiça à memória destes presos, integrando estas prisões na história do Tarrafal._____________________________________________________*Vera da Conceição Mendes Silva Lopes de Oliveira, filha de antigo preso político, em nome dos familiares subscritores.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1282 de

Tarrafal: a memória não pode ser contada pela metade

Na qualidade de familiares de cidadãos presos no Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975, vimos manifestar profunda preocupação e desagrado relativamente à omissão, no Documento Fundador do Museu da Resistência do Campo de Concentração do Tarrafal, da utilização daquele espaço prisional após o 25 de Abril de 1974.

Reconhecemos plenamente a importância histórica, patrimonial e simbólica do Campo do Tarrafal enquanto lugar de memória da repressão colonial e da resistência antifascista. A preservação dessa memória constitui um dever coletivo para com as vítimas da opressão política e para com as futuras gerações.

Contudo, a memória histórica não pode ser seletiva nem construída sobre silêncios convenientes.

A reabertura do Tarrafal em dezembro de 1974 e a detenção de cidadãos cabo-verdianos naquele espaço até julho de 1975 constituem factos históricos que hoje se encontram documentados através de testemunhos, investigação académica e obras publicadas, incluindo estudos recentes dedicados especificamente a esse período.

Segundo a investigação histórica recentemente publicada, dezenas de cidadãos caboverdianos foram detidos e enviados para o Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975, sem condenação judicial e, em muitos casos, sem que lhes tivesse sido formalmente comunicada qualquer acusação.

Os testemunhos recolhidos descrevem detenções motivadas por divergências políticas, suspeitas de oposição ao processo político então em curso e alegadas ligações a movimentos considerados adversários. Os detidos permaneceram privados da liberdade num local cuja carga simbólica estava já profundamente associada à repressão política e à violação de direitos fundamentais.

A investigação académica tem igualmente demonstrado que esta fase da história do Tarrafal permaneceu durante décadas praticamente ausente da memória oficial, dos estudos históricos dominantes e dos processos de valorização patrimonial do antigo campo, circunstância que motivou a designação de “campo do silêncio” atribuída a este período.

É precisamente essa invisibilidade histórica que hoje preocupa os familiares dos antigos presos. A construção de um museu dedicado à resistência e à memória exige que todas as vítimas da repressão política associada àquele espaço sejam recordadas com igual dignidade, independentemente do contexto político em que ocorreram as respetivas detenções.

A exclusão desta realidade do discurso museológico e institucional representa não apenas uma omissão histórica grave, mas também uma injustiça moral para com os homens que ali estiveram presos nesse período e para com as respetivas famílias.

Um museu de memória, especialmente quando associado a valores universais de direitos humanos e quando apoiado ou reconhecido pela UNESCO, deve assentar nos princípios da verdade histórica, da integridade documental e da pluralidade da memória. Não pode existir hierarquização de vítimas nem apagamento de determinados períodos históricos por razões políticas, ideológicas ou narrativas.

Ignorar os presos do Tarrafal entre 1974 e 1975 compromete a autenticidade histórica do próprio memorial e fragiliza a credibilidade internacional de qualquer processo de valorização patrimonial associado àquele espaço.

A memória das vítimas não pode depender da conveniência política do momento histórico em que sofreram repressão.

Assim, vimos, em conjunto e desta forma, respeitosamente solicitar:

1.O reconhecimento público e institucional da utilização do Campo do Tarrafal entre dezembro de 1974 e julho de 1975;

2.A integração explícita desta fase histórica no discurso museológico e científico do Museu da Resistência do Tarrafal;

3.A inclusão da memória, testemunhos e identificação dos presos desse período nos conteúdos expositivos, documentais e pedagógicos do museu;

4.A garantia de que qualquer apoio, validação ou reconhecimento internacional associado ao memorial observe integralmente os princípios da verdade histórica, da integridade patrimonial e da memória inclusiva.

A preservação da memória histórica exige coragem institucional para reconhecer toda a verdade, incluindo as partes mais incómodas da história.

Não se pretende reescrever a história nem diminuir a relevância das anteriores fases do Campo do Tarrafal. Pretende-se apenas que a história seja contada por inteiro. Um lugar de memória só cumpre plenamente a sua missão quando reconhece todas as vítimas que por ele passaram e todos os períodos da sua existência historicamente documentados.

O silêncio também pode ser uma forma de apagamento.

Com elevada consideração remetemos a Vossas Excelências o nosso protesto na expectativa de que seja feita justiça à memória destes presos, integrando estas prisões na história do Tarrafal.

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*Vera da Conceição Mendes Silva Lopes de Oliveira, filha de antigo preso político, em nome dos familiares subscritores.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1282 de 24 de Junho de 2026.