A Art Ancestral de Fabio Seabra Traduz a Herança Africana em Linguagem de Moda Contemporânea.

Por Eliana Oliveira Editora De Moda – Curadoria e pesquisa. Crédito de Imagem (Artes): Fábio Seabra. Por trás de cada …

A Art Ancestral de Fabio Seabra Traduz a Herança Africana em Linguagem de Moda Contemporânea.

Por Eliana Oliveira

Editora De Moda – Curadoria e pesquisa.

Crédito de Imagem (Artes): Fábio Seabra.

Por trás de cada tecido existe uma memória. Por trás de cada cor existe uma filosofia. E por trás de cada adorno existe uma história que atravessou séculos, oceanos e gerações.

É justamente nesse território onde ancestralidade, estética e identidade se encontram que nasce o trabalho artístico de Fabio Seabra, uma criação visual que propõe uma leitura contemporânea dos Orixás através da moda, do design digital e da sofisticação simbólica das culturas africanas.

Mais do que representar divindades, a série constrói uma ponte entre a herança cultural dos antigos reinos africanos e a linguagem visual do século XXI. Em diálogo com a curadoria de imagens que apresentam homens e mulheres africanos em seu cotidiano, a obra revela como espiritualidade, vestimenta, comportamento e identidade sempre caminharam lado a lado na construção do lifestyle africano.

A proposta não é observar os Orixás apenas como figuras religiosas, mas compreender como seus símbolos continuam vivos nas cores, nos tecidos, nos adornos e nas expressões estéticas que ainda hoje inspiram a moda africana contemporânea.

Quando a Moda se Torna Memória.

Muito antes das passarelas internacionais, os povos iorubás, fon, mahin e diversos grupos da África Ocidental já utilizavam tecidos, contas, metais, búzios e pigmentos naturais como uma sofisticada linguagem de comunicação social e espiritual.

Nas antigas cidades de Oyó, Ilé-Ifẹ̀, Abeokutá, Ejigbô, Ilesa e tantas outras regiões que ajudaram a moldar a civilização iorubá, vestir-se significava muito mais do que cobrir o corpo.

A roupa indicava origem.

Os adornos revelavam posição social.

As cores comunicavam valores.

Os tecidos narravam pertencimento.

A estética funcionava como uma extensão da própria identidade.

Ao observarmos as fotografias de homens e mulheres africanos que compõem esta matéria, percebemos que muitos desses elementos continuam presentes no cotidiano. Turbantes, estampas geométricas, tranças elaboradas, tecidos artesanais, joias metálicas e combinações cromáticas preservam uma herança visual que permanece viva mesmo diante das transformações da modernidade.

É exatamente essa continuidade cultural que Fabio Seabra traduz em sua Art Ancestral.

Os Orixás Como Arquétipos de Estilo

Na série, cada divindade é interpretada como uma força estética capaz de inspirar narrativas visuais contemporâneas.

Èṣù surge como movimento, comunicação e transformação.

Ògún representa tecnologia, metal e inovação.

Oxóssi traduz contemplação, natureza e abundância.

Osanyin manifesta a inteligência botânica e a cura ancestral.

Obaluaiê transforma textura, terra e fertilidade em linguagem visual.

Oxumarê incorpora o ciclo eterno das mudanças através da dualidade cromática.

Yewá apresenta o mistério, a delicadeza e a beleza cósmica.

Nàná expressa o tempo profundo, a ancestralidade e o matriarcado.

Xangô traduz poder, liderança e realeza.

Obá representa resistência feminina e estratégia.

Oyá personifica movimento, metamorfose e liberdade.

Oxum transforma ouro, diplomacia e elegância em narrativa visual.

Lógun Ẹdẹ sintetiza juventude, refinamento e equilíbrio.

Yemọja evoca acolhimento, maternidade e proteção.

Ajè materializa prosperidade, abundância e dignidade.

Iroko revela a estabilidade do tempo e da memória ancestral.

Ìbejì celebra a alegria, a infância e a continuidade da vida.

Oxaguiã representa inovação, juventude e evolução.

Obatalá traduz serenidade, criação e equilíbrio.

Cada personagem visual foi concebido como uma espécie de editorial de moda ancestral, onde os símbolos religiosos dialogam com conceitos contemporâneos de design, luxo, identidade e pertencimento.

A Geografia das Cores

A pesquisa que sustenta a obra também percorre importantes territórios históricos da atual Nigéria.

Em Oyó, antigo centro político do império iorubá, predominam os vermelhos intensos, os brancos cerimoniais e os tons metálicos associados à autoridade e ao poder real.

Em Ilé-Ifẹ̀, considerada a capital espiritual da civilização iorubá, a elegância nasce da simplicidade dos tons claros, marfim e branco absoluto.

Em Abeokutá, território tradicionalmente associado a Yemọja, os azuis profundos, os brancos translúcidos e as pérolas remetem à fluidez das águas.

Em Ilesa, região ligada às florestas e rios que inspiram o imaginário de Lógun Ẹdẹ, o dourado, o bronze e o azul-turquesa constroem uma estética de requinte natural.

Em Ejigbô, cidade associada a Oxaguiã, o branco encontra o azul-marinho e os tons metálicos em uma representação visual da inovação e do progresso.

Essas referências continuam presentes na produção têxtil africana atual através de tecidos tradicionais como o Aṣọ-Òkè, o Adire, o Ofi e outras expressões artesanais que hoje inspiram estilistas de todo o continente.

A Moda Africana Como Herdeira da Ancestralidade

A moda africana contemporânea não surge como ruptura.

Ela surge como continuidade.

Os estilistas africanos atuais reinterpretam padrões ancestrais utilizando novas tecnologias, novos materiais e novas narrativas visuais, mas preservam a essência simbólica que acompanha essas culturas há séculos.

Os tons dourados de Oxum continuam aparecendo em coleções de luxo.

Os vermelhos associados a Xangô e Oyá permanecem representando força e liderança.

Os azuis de Yemọja evocam proteção e profundidade.

Os verdes ligados a Oxóssi, Osanyin e Iroko seguem simbolizando crescimento, natureza e renovação.

Os brancos dos Orixás Funfun preservam sua associação com equilíbrio, sabedoria e paz.

A ancestralidade não desaparece.

Ela se reinventa.

Crédito de Imagem: Keith

Exú a estética contemporânea, criando um “luxo ancestral”.

Crédito de Imagem: Strawhat Soile

Ogum a tecnologia como um tecido social que molda uma peça para a nossa alma civilizatória.

Crédito de Imagem: Detty Imagens

Oxóssi a indumentária reflete a estética natural que afirmam sua soberania e beleza analítica.

Crédito de Imagem: Oseiadade Kenneth

Osanyin a vestimenta é uma alquimia das folhas.

Crédito de Imagem: Thirdman

Ọbalúayé o design transforma o segredo em vestimenta.

Crédito de Imagem: Biggie

Oxumaré o tecido se torna uma extensão do arco-íris afirmando que a beleza reside na leveza do eterno retorno.

Crédito de Imagem: Serdi

Yewá a estética utiliza a integridade de sua silhueta em corpo inteiro, sem cortes.

Crédito de Imagem: Taiyesalawu

Nàná Sua indumentária, marcada pela vaidade aristocrática das anciãs.

Crédito de Imagem: G Star Media

Xangô a soberania jurídica em vestimenta.

Crédito de Imagem: Khaliifah hussein

Obá com estilo conceitual, onde cada dobra afirma sua soberania e sua recusa em ser silenciada.

Crédito de Imagem: Abubakar Mamman.

Oyá uma soberania indomável que transforma a dinâmica do vento em vestimenta que é celebrada na sofisticação com que o conceito de liberdade e liderança feminina é representado no design contemporâneo e luxo ancestral

Crédito de Imagem: Taiyesalawu

Oxum o segredo e a diplomacia em vestimenta, o adorno do turbante em uma armadura de sedução e inteligência, onde o verdadeiro mistério permanece velado.

Crédito de Imagem: Skylight Views

Lógun Edé o conceito de equilíbrio e fronteira elevando um conceito de texturas, com a suntuosidade dos metais dourados.

Crédito de Imagem: Alameenng

Yemamjá o movimento das ondas em algo conceitual, as texturas das espumas em uma extensão de sua própria pele protetora, reafirmando que vestir Yemoja é vestir o próprio mistério do destino humano.

Crédito de Imagem: Venvick

Iroko sofisticação com conceito botânica litúrgica design contemporâneo e luxo ancestral, homenageando a sabedoria e a autoridade dos anciãos que guardam a memória e os compromissos das dinastias.

Design Digital Como Continuidade do Mito

O diferencial do trabalho de Fabio Seabra está justamente na forma como essa herança é transportada para a linguagem visual contemporânea.

Através do design digital, os antigos itans ganham novas possibilidades narrativas.

Os pixels substituem os antigos pigmentos.

As camadas digitais assumem o papel dos panejamentos rituais.

Os efeitos de luz reinterpretam o brilho dos metais ancestrais.

A tecnologia não rompe com a tradição.

Ela amplia sua capacidade de comunicação.

Nesse processo, os Orixás deixam de habitar apenas os livros, os templos e as narrativas orais para ocupar também o universo das artes visuais, da moda conceitual e da cultura digital.

Aworan Mimọ – Imagem Sagrada.

Coleção de arte visual do Artista Fabio Seabra

Èṣù Laalu – O Grande Mercador

Esta obra é uma imersão na figura de Èṣù (Iorubá), a divindade do confronto interno, da autocrítica e o fio condutor da comunicação na diáspora africana. Como senhor do mercado, ele rege as negociações do ser, desde o diálogo íntimo até as interações com o mundo.

Construção dessa imagem: Vanguarda e Caos: Utilizo da desconstrução e o “caos criativo” para gerar novas formas, Èṣù utiliza o caos como ferramenta de solução e autoconhecimento.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se na fusão da iconografia iorubá com a estética contemporânea, criando um “luxo ancestral” que com as tendências sociais.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma o mito em vestimenta. A indumentária presente na obra reflete a ótica da religiosidade afro-brasileira, onde cada adereço é uma afirmação de poder e história.

Ogum (Ògún).

Ògún – O Eterno Desbravador

É a divindade da tecnologia e da transformação radical. Como senhor da guerra, da conquista de territórios e da objetividade irrefreável, ele representa a força de liderança primordial e a capacidade de abrir caminhos através do conflito e da ordem. Sua relevância no mundo contemporâneo é extrema, pois ele rege a própria engenharia da existência moderna, a ferramenta que Molda o Mundo.

Construção dessa imagem: O Refinamento Ancestral: A “pedra angular” deste projeto é redefinir o refinado: ele não vem da raridade, mas da transformação ritualística do metal bruto em arte (representada pelas joias e ferramentas da Orixá Oxum). A brasilidade manifesta-se na capacidade de sincretismo estético, onde o axé da religiosidade afro-brasileira se funde com a aplicabilidade global em infinitos seguimentos.

Tecnologia como Tecido: A obra de Fabio Seabra trata a tecnologia como um tecido social que Ogum molda. Cada ferramenta forjada é uma peça para a nossa alma civilizatória.

Oxóssi

Ọ̀ṣọ́ọ̀sí – O Caçador do Belo e da Fartura

Esta obra é uma imersão na figura de Oxóssi, o senhor da caça, da família e da fartura sobre a mesa. Ele representa a preservação da natureza e o arquétipo do observador concentrado, analítico e silencioso. Conhecido como o caçador de uma única flecha, Oxóssi caça apenas para o sustento real, personificando a precisão e o equilíbrio ecossistêmico.

Construção dessa imagem: Vanguarda e Observação: Utilizo a desconstrução visual para representar o olhar lúdico de Oxóssi sobre o que é belo e encantado. Ele é a vanguarda que observa o invisível no silêncio da floresta.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se na exaltação da fauna e flora locais, fundindo a iconografia iorubá com a estética natural que a floresta brasileira oferece, criando um “requinte ancestral” orgânico.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a natureza em vestimenta. A indumentária reflete a estética natural de Oxóssi, onde o barulho da água e o canto dos pássaros são traduzidos em formas e adornos que afirmam sua soberania e beleza analítica.

Osanyin

Ọ̀sányìn – O Grande Boticário da Floresta

Esta obra retrata a figura de Osanyin, o grande boticário e o detentor absoluto do segredo das folhas e de suas magias. Homem recluso das profundezas da floresta, ele carrega consigo a sabedoria ancestral da cura através das ervas medicinais, dos feitiços e encantamentos extraídos da flora. Trata-se de uma divindade de extrema importância litúrgica, cuja premissa rege toda a existência: “Sem folha não tem vida, sem folha não tem nada”.

Construção dessa imagem: Vanguarda e Caos: Utilizo a desconstrução e a fragmentação digital para representar o mistério da reclusão. Osanyin emerge do fundo da floresta através do “caos criativo” das texturas, onde a matéria orgânica se confunde com o plano divino.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se no sincretismo da nossa flora medicinal e no conhecimento herbolário tradicional, fundindo a iconografia iorubá com a biodiversidade brasileira para criar um “requinte ancestral” profundamente ligado à terra.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a alquimia das folhas em vestimenta. A indumentária presente na obra reflete a ótica da alquimia afro-brasileira, transformando coroas de ervas e colares rústicos em alto conceituo, onde cada elemento vegetal é uma afirmação de cura, poder e mistério.

Obaluae

Ọbalúayé – O Sol encoberto e a Textura da Terra

Esta obra se foca na figura de Obaluaye (Grande Senhor da Terra ou Omolu, o “Filho do Senhor”), como elemento primordial de fertilidade, cura e provimento. Ele é o próprio Deus Sol, cuja magnitude brilha com tamanha intensidade que exige o manto de palhas para proteger os olhos humanos. Regente absoluto das condições de saúde — com o poder sutil de curar ou acometer —, Obaluae manifesta seu lado lúdico ao semear a esperança, provendo o sustento que brota do solo para alimentar a humanidade e tudo o que nos serve de alimento.

Sua ancestralidade conecta-se diretamente ao Vodun daomeano Azonsu, pertencente à família dos que vestem palha. As fibras de sua vestimenta traduzem uma natureza intrinsecamente misteriosa e silenciosa, exigindo profundo respeito e cautela.

Construção dessa imagem: Vanguarda Oculta: Utilizo a desconstrução digital para diluir as fronteiras entre a palha ritual e a luz solar. Obaluaye representa a vanguarda do que é secreto: uma identidade que se esconde para poder curar, transformando o mistério em pura potência visual.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se no cruzamento das tradições iorubá e daomeana que refloresceram no Brasil. A palha-da-costa ganha uma roupagem de formato contemporâneo, transformando matéria orgânica em um “requinte ancestral” sofisticado e reverente.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma o segredo em vestimenta. A indumentária presente na obra reinterpreta o manto sagrado de palhas como uma textura têxtil rica e imponente, onde cada fileira de búzios e cada feixe de fibra são afirmações de design, autoridade e preservação da vida.

Oxumarê

Òṣùmàrè – O Ciclo Infinito e a Dualidade Cromática

Esta obra explora a figura de Oxumarê, o princípio da dualidade absoluta e o regente da renovação contínua. Como a grande serpente do dia, ele transporta as águas celestiais para a terra, fecundando o solo e mantendo o equilíbrio da vida. Sua iconicidade manifesta-se no arco-íris, o fenômeno que une o Sol e a chuva, simbolizando a leveza e a sutileza que são seus aspectos primordiais.

A criação fundamenta-se em quase cinco décadas de vivência na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas sobre a fusão cultural entre os Iorubás e o império Daomeano, onde Oxumarê encontra suas raízes no senhor supremo Dangbé.

Construção dessa imagem: Vanguarda e Ciclo: Utilizo a desconstrução digital para representar a volatilidade de Oxumarê. Ele é a vanguarda do movimento; uma divindade que não se fixa, mas que flui entre o céu e a terra, transformando o “caos” da chuva e do sol em uma obra de arte natural.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se na sutileza com que as tradições iorubá e daomeana se entrelaçaram em nosso território. O projeto traduz essa herança através de um design que une o rústico das escamas e as cores vibrantes, resultando em um “requinte ancestral” único.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a dualidade em vestimenta. A indumentária presente na obra reflete a ótica da metamorfose afro-brasileira, onde o tecido se torna uma extensão do arco-íris e do corpo da serpente, afirmando que a beleza reside na leveza do eterno retorno.

Yewá

Yewá – A Serpente Cósmica e o Esplendor Etéreo

Esta obra é uma imersão poética na figura de Yewá, a deusa da noite e a personificação da beleza oculta. Representada como a grande serpente negra que sustenta magneticamente o planeta Terra no espaço cósmico, ou que repousa em silêncio aos pés do Criador, ela domina os mistérios metafísicos. Exímia caçadora, Yewá se manifesta através da bruma para confundir suas presas, revelando uma volatilidade e sutileza incomparáveis. É uma divindade que escolhe o etéreo em detrimento do telúrico, mantendo-se distante dos apelos puramente mundanos.

A criação fundamenta-se em pesquisas minuciosas sobre os itans que conectam a astronomia sagrada aos mistérios invisíveis do plano extrafísico.

Construção dessa imagem: Vanguarda Transcendente: Utilizo a desconstrução digital para materializar o estado de bruma. Yewá é a vanguarda do intangível; sua imagem se fragmenta no espaço para mostrar que o sagrado não pode ser aprisionado pela matéria, transformando o “caos” da escuridão noturna em pura sofisticação abstrata.

Identidade Brasileira: A brasilidade se revela na capacidade única de preservar a sofisticação da alta magia diaspórica. O projeto estiliza elementos tradicionais como a cabaça de búzios e as texturas geométricas da saia, conferindo-lhes uma roupagem de “vanguarda, mesmo sendo ancestral” que dialoga com o design contemporâneo global.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma o mistério em vestimenta. A indumentária presente na obra reflete o ritual estético sob a ótica afro-brasileira, onde os tons quentes do vermelho e do amarelo contrastam com o fundo cósmico, transformando o halo lunar e a serpente em joias e adornos que coroam uma soberania atemporal.

Nàná

Nàná – O Barro Primordial e a Soberania do Tempo

Esta obra evoca a imponência de Nàná, a deusa mãe idosa, reverenciada como a sabedoria e a rigidez em pessoa. Matriarca ancestral de todos os deuses daomeanos que se fundiram à cultura iorubá, ela carrega um temperamento impaciente e ranzinza, mas imensamente respeitável por seu domínio absoluto sobre a alta magia e sua conexão direta com Ikú (o senhor da Morte). Na cosmologia da criação, Nàná representa a origem: o barro primordial e úmido com o qual os seres humanos foram meticulosamente esculpidos. É a estrategista cósmica que ignora o efêmero, optando sempre por soluções de longo prazo que garantam resultados definitivos.

A criação fundamenta-se Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas sobre a ancestralidade daomeana e sua fusão com o legado iorubá.

Construção dessa imagem: Vanguarda e Rigidez: Utilizo a desconstrução digital para dissolver as bordas da matéria, mostrando que a ancestralidade de Nàná caminha entre a densidade da terra e a eternidade do plano espiritual. Ela é a vanguarda do tempo; a paciência ancestral que molda o caos em estrutura definitiva.

Identidade Brasileira: A brasilidade se consolida na dignidade conferida à figura da anciã e no resgate do sincretismo estético daomeano-iorubá que se estabeleceu fortemente em solo brasileiro. O projeto reinterpreta o manto clássico e o ibiri como insígnias de um luxo monárquico e matriarcal tipicamente afro-brasileiro.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a maturidade e a fertilidade em vestimenta. A indumentária presente na obra traduz visualmente o peso e o respeito que a palha e as contas carregam, convertendo as texturas da terra e os grafismos conceitual, onde cada detalhe é uma afirmação de poder, gestação e soberania sobre a vida e a morte.

Xangô

Ṣàngó – A Realeza Dinástica e a Estética do Poder

Esta obra é o retrato da imponência de Xangô, o rei vivo do Reino de Oyó. Monarca garboso, sedutor e profundamente vaidoso, ele personifica a autoridade máxima e o fogo transformador. Como divindade dos trovões, sua ira reverbera em labaredas em forma esféricas expelidas por sua boca, (associação com asteroides caídos dos céus) enquanto sua altivez

é consolidada no exercício de uma justiça baseada em princípios éticos próprios, e não em leis categóricas. Do alto de seu trono, com sua coroa e seu filá (franjas de missangas e búzios que lhe concedem o tom de divindade), ele ouve o seu povo, julga e dita determinações irreversíveis.

Sua trajetória mítica é indissociável das três grandes rainhas do panteão iorubá que moldaram sua corte: Obá, a deusa amazona e chefe da sociedade Elekó, com quem se uniu por aliança estratégica; Oyá, a destemida senhora dos ventos, cuja paixão avassaladora e fluida o desafiou a dividir o próprio trono; e Oxum, a doce divindade cujo estilo impecável, tranças milimetricamente arrumadas e caminhar dançante e flutuante despertaram seu profundo encantamento.

A criação fundamenta-se em anos na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas sobre as insígnias de ostentação e direito monárquico na diáspora.

Construção dessa imagem: Vanguarda Majestática: Utilizo a desconstrução digital para dissolver as extremidades do trono e da realeza em uma expansão de energia em chamas. Xangô representa a vanguarda do poder absoluto; uma estética onde a estabilidade do julgamento real se funde ao dinamismo destrutivo e criador do fogo.

Identidade Brasileira: A brasilidade se manifesta na sofisticação com que a dignidade da monarquia de Oyó foi preservada e coroada na cultura afro-brasileira. O arquivo XANGO.jpg reinterpreta as joias de cobre, os corais e os búzios sob a ótica de uma joalheria de luxo ancestral, celebrando o refinamento estético que resistiu e lidera o repertório cultural do país.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a soberania jurídica em vestimenta. A indumentária presente na imagem traduz a opulência têxtil de um rei que assimilou a elegância de suas rainhas: o panejamento pesado em vermelho e marrom evoca tanto a indumentária de guerra quanto o requinte das tranças e adornos de corte, elevando o manto dinástico ao patamar conceitual contemporânea.

Obá

Ọbà – A Fúria das Águas e a Armadura da Devoção

Esta obra é uma imersão na magnitude de Obá, a divindade dos rios revoltos e das águas doces intensamente agitadas. Figura central e imponente no panteão iorubá, ela é reverenciada como uma guerreira destemida de força formidável, cuja energia física supera lendas e desafia o próprio patriarcado na defesa intransigente dos direitos das mulheres. Seu arquétipo transita entre a impetuosidade nos campos de batalha e uma devoção inabalável no amor — uma intensidade que, embora marcada por ressentimentos profundos de traição, preserva sua essência soberana e indomável.

Sua narrativa mítica carrega a densidade do sacrifício feito por amor a Xangô. Induzida por um ardil de Oxum, Obá decepou a própria orelha para compor um ensopado ritualístico, acreditando que conquistaria a preferência do rei. O subsequente repúdio de Xangô culminou em um embate físico monumental entre as duas rainhas, uma fúria tão devastadora que ambas se transmutaram em rios na Nigéria, cujo encontro de águas permanece, até hoje, celebremente turbulento e tempestuoso.

A criação fundamenta-se em quase cinco décadas de vivência na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas sobre a iconografia de combate e as sociedades de mulheres guerreiras na diáspora. A Sociedade Secreta das Mulheres Guerreiras, a Sociedade Elekó (Elẹkò), da qual Obá é a soberana.

Construção dessa imagem: Vanguarda Combativa: Utilizo a desconstrução digital para fragmentar as bordas de sua silhueta em direção ao fundo dinâmico. Obá representa a vanguarda da resistência feminina; uma estética onde a rigidez do metal e a fluidez das águas agitadas se fundem, mostrando que mesmo a dor do sacrifício se transforma em uma armadura de poder inexpugnável.

Identidade Brasileira: A brasilidade se manifesta na altivez e no respeito conferidos à estética da mulher guerreira na cultura afro-brasileira. Obá reinterpreta os adornos de búzios que emolduram seu rosto e os metais pesados sob a ótica de um design contemporâneo de “visão ancestral”, celebrando a presença histórica das mulheres que lideram e sustentam as tradições de terreiro no país.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a prontidão para a guerra em vestimenta. A indumentária drapeada em tons de laranja que envolve o busto da divindade afasta o vermelho tradicional para evocar a cor do atrito e da terra seca que margeia os rios revoltos, convertendo o panejamento ritual e as amarrações táticas de combate com estilo conceitual, onde cada dobra afirma sua soberania e sua recusa em ser silenciada.

Oyá

Ọya – A Senhora das Tempestades e a Diáspora das Folhas

Esta obra voltada a força arrebatadora de Oyá, a divindade dos ventos, das tempestades e dos raios. Segunda esposa, aliada e cúmplice de Xangô, ela emerge como uma figura de temperamento impetuoso, guerreiro e profundamente independente. Dona de uma personalidade corajosa e irrequieta, seu poder oscila entre o afago de uma brisa sutil e a devastação de um furacão absoluto. Miticamente mutável, ela se transfigura em búfalo na densidade das batalhas para destroçar inimigos, ou em borboleta quando decide seduzir, envolver e encantar o mundo espiritual.

Sua narrativa atinge o ápice dinâmico no confronto com o segredo de Osanyin, o detentor exclusivo das propriedades mágicas e medicinais da cura botânica. Incomodado com o fato de as ervas estarem aprisionadas em uma cabaça no topo de uma árvore sagrada, Xangô convocou o poder de sua rainha. Atendendo ao chamado, Oyá liberou um vendaval tão violento e direcionado que quebrou o receptáculo misterioso, espalhando as folhas sagradas pelo cosmos e descentralizando o segredo da cura para todas as outras divindades.

A criação fundamenta-se na vivência dentro da Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e na pesquisa sobre a aerodinâmica mística e os cultos aos ancestrais egungun.

Construção dessa imagem: Vanguarda Cinética: Utilizo a desconstrução e a dispersão digital para dar forma ao invisível. Representando a vanguarda do movimento; os pixels se desfazem na tela para simular a velocidade do vento, mostrando que a divindade não se fixa na matéria, mas flui como a própria tempestade que reorganiza o universo.

Identidade Brasileira: A brasilidade é celebrada na sofisticação com que o conceito de liberdade e liderança feminina é representado. O projeto reinterpreta o eruexim (ìrùẹṣin) e os adornos de cobre sob uma perspectiva de design contemporâneo e luxoso da ancestral, homenageando a força das mulheres que comandam com independência os territórios sagrados afro-brasileiros.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a dinâmica do vento em vestimenta. A indumentária vermelha que envolve o busto de Oyá parece inflar e se dissolver sob o impacto da própria ventania, convertendo o panejamento litúrgico e a revoada de folhas em uma possibilidade conceitual, onde o tecido é a extensão do raio e a afirmação de uma soberania indomável.

Oxum

Ọ̀ṣun – O Espelho da Alma e o Segredo das Águas Doces

Esta obra é um mergulho na fascinante dualidade de Oxum, a divindade das águas doces, da fertilidade, do amor, da beleza e da riqueza. Sob a superfície de uma vaidade deslumbrante, graça inigualável e aparente doçura, repousa uma personalidade intensamente firme, dotada de uma inteligência estratégica impecável e obstinação implacável. Ela é a diplomata do panteão iorubá, cujos contornos diplomáticos escondem uma astúcia mística capaz de governar os sentimentos mais profundos e as decisões da corte real.

Sua mitologia evoca o célebre itan da rivalidade com Obá, também esposa de Xangô. Admirada e invejada por sua capacidade contínua de magnetizar o rei, Oxum usou de estratégia ao ser questionada sobre seu segredo de sedução: sob o mistério de seus turbantes, mentiu à rival que decepava pedaços de sua própria orelha para infundir na iguaria predileta do monarca, garantindo que o membro se regenerava logo em seguida. O trágico desfecho da automutilação de Obá e o horror de Xangô culminaram na fuga de sua oponente. A eterna discórdia cristalizou-se na geografia sagrada da Nigéria, onde as águas mansas do rio Oxum chocam-se e duelam em violenta turbulência com o leito de Obá.

A criação fundamenta-se em anos de vivência na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas profundas sobre a joalheria sagrada e a soberania das divindades ligadas à riqueza e à concepção.

Construção dessa imagem: Vanguarda Estratégica: Utilizo a desconstrução digital para criar um efeito de dupla exposição e movimento circular na tela. OSUN – ÁGUA E MISTÉRIO representa a vanguarda do mistério feminino; os pixels se misturam à luz dourada para mostrar que o poder de Oxum não reside na força física, mas na capacidade de espelhar o universo e envolver a realidade em suas próprias correntes.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se no refinamento e na dignidade com que a estética da maternidade e da riqueza afro-brasileira é reverenciada. O projeto reinterpreta o turbante (torço) de filamento dourado e as joias ritualísticas sob uma ótica de luxo ancestral, homenageando o papel central e imponente que as grandes Yalorixás exercem na preservação cultural do país.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma o segredo e a diplomacia em vestimenta. A indumentária presente no arquivo OSUN – ÁGUA E MISTÉRIO substitui as texturas comuns por um panejamento que emula a liquidez do rio e o brilho do ouro maleável, convertendo o caimento do tecido e o adorno do turbante em uma armadura de sedução e inteligência, onde o verdadeiro mistério permanece velado.

Lógun Edé

Lógun Ẹdẹ – O Equilíbrio das Margens e o Estragista Bélico

Esta obra explora a complexa e fascinante transição mística de Lógun Ẹ̀dẹ, o orixá que governa o limiar onde as florestas densas encontram as águas doces. Conhecido tradicionalmente em terras iorubás como o “pequeno guerreiro que os anciãos respeitam”, sua essência sofreu profundas e poéticas adaptações ao cruzar o Atlântico. Enquanto na Nigéria — especificamente em Ilexá e Ẹ̀dẹ — ele é cultuado como uma divindade adulta, austera, caçadora e de fúria temida em combate, a diáspora afro-brasileira no Candomblé reelaborou sua identidade. No Brasil, consolidou-se o fascinante arquétipo do “orixá menino”, o belo e vaidoso príncipe de guarda compartilhada que passa seis meses nas matas herdando a sagacidade de seu pai Oxossi e seis meses nos rios absorvendo a doçura de sua mãe Oxum.

A narrativa mítica central desta imagem evoca o tempo em que a floresta e o leito do rio coexistiam misturados, gerando uma fronteira confusa que irritava o jovem príncipe. Usando de inteligência cirúrgica, feitiçaria e coragem, Lógun Ẹ̀dẹ empunhou seus instrumentos sagrados para traçar linhas exatas na natureza, separando os domínios e estabelecendo a harmonia e a fartura nas margens desse ecossistema.

A criação fundamenta-se em quase cinco décadas de vivência na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas sobre a transição histórica e tática dos cultos de Erinlé (um caçador cultuado no rio de mesmo nome) e da bacia do rio Ógùn.

Construção dessa imagem: Vanguarda e Dualidade Tática: Utilizo a desconstrução e a dispersão geométrica de pixels para materializar sua capacidade de transição elementar. LOGUN EDE representa a vanguarda da adaptabilidade; a imagem se divide sutilmente para mostrar um guerreiro-caçador capaz de guerrear com a mesma imprevisibilidade na terra firme ou nos leitos flutuantes, convertendo a tática militar em pura poesia visual.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se na fusão sofisticada entre o rigor do caçador africano e o lirismo jovem celebrado nos terreiros do Brasil. O projeto reinterpreta o manto de estampa de leopardo (asá) e os colares de contas sob uma perspectiva de “requinte ancestral”, homenageando a engenhosidade com que a diáspora brasileira preservou o poder político desse príncipe sob a roupagem de um encanto arrebatador.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a demarcação da natureza em vestimenta de corte. A indumentária presente em LOGUN EDE une as texturas rústicas da fauna das matas com a suntuosidade dos metais dourados das águas, traduzindo o conceito de equilíbrio e fronteira elevando um conceito de texturas, onde o corpo do orixá se torna o próprio monumento vivo do encontro entre dois mundos.

Yemamja

Yemọja – A Grande Mãe dos Destinos e a Expansão dos Oceanos

Esta obra é uma imersão na magnitude mística de Yemonja, a divindade originária do povo Egbá que personifica a maternidade universal, a fertilidade e a imensidão das águas. Seu temperamento e geografia ritual sofreram uma metamorfose monumental ao cruzar o Atlântico. Na tradição iorubá original, em Abeocutá, ela é a senhora severa e justa dos corpos de água doce, governando os leitos dos rios Yemoja e Ogun com autoridade e respeito ancestral. Ao aportar na diáspora do Brasil e do Caribe, sua soberania expandiu-se de forma épica para o reino absoluto dos mares e oceanos.

Nessa transição, sua imagem absorveu o arquétipo do acolhimento irrestrito, tornando-se o símbolo máximo do perdão, da doçura e da proteção profunda, sem jamais abdicar do respeito rigoroso às hierarquias sagradas.

A narrativa visual captura o clímax de seu célebre itan de libertação e transfiguração. Casada com o rei Okerê sob a condição de que ele jamais ridicularizasse a fartura de seus seios — gerados pelo ato generoso de nutrir a vida —, Yemoja foi profundamente humilhada e ferida pelo monarca em um momento de embriaguez. Em sua fuga desesperada, seu corpo dissolveu-se em um rio caudaloso. Diante da perseguição do rei, ela clamou pelo poder de Xangô, que fendeu a terra com um raio e abriu o caminho definitivo para que as águas de sua mãe desembocassem na imensidão do oceano.

A criação fundamenta-se na vivência da Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e em pesquisas profundas sobre a cosmologia do Ori e o simbolismo da fertilidade na diáspora.

Construção dessa imagem: Vanguarda Fluida e Expansiva: Utilizo o efeito de desconstrução digital para simular a exata transmutação do corpo físico de Yemonja em matéria líquida. YEMOJA – AS ESPUMAS QUE ENVOLVEM representa a vanguarda do acolhimento ancestral; os pixels se desfazem na lateral da tela em um rastro dinâmico de vento e espuma, mostrando que a divindade transbordou as margens dos rios africanos para se tornar o próprio oceano infinito que conecta continentes.

Identidade Brasileira: A brasilidade é celebrada na dignidade e na riqueza com que o arquétipo da “Mãe das Cabeças” é reverenciado. O projeto reinterpreta a tradicional representação da rainha do mar sob uma ótica contemporânea e de luxo ancestral, homenageando a força e o protagonismo histórico das mulheres e das grandes mães que estruturam as comunidades e os territórios sagrados afro-brasileiros.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma o movimento das ondas em algo conceitual. O panejamento em tons de azul-turquesa que envolve o corpo de Yemonja parece flutuar e inflar com a brisa marinha, convertendo os

tecidos ritualísticos e as texturas das espumas em uma extensão de sua própria pele protetora, reafirmando que vestir Yemoja é vestir o próprio mistério do destino humano.

Iroko

Iroko – O Trono do Tempo e a Escada dos Mundos

Esta obra é uma visão artística na imponência cósmica de Iroko, a divindade que rege o Tempo, a ancestralidade e a ligação irrevogável entre a dimensão espiritual e a terrena. Cultuado como uma força ancestral colossal, sua presença física e mística manifesta-se majestosamente através de uma árvore sagrada. Em terras iorubás, a espécie Milicia excelsa é temida e profundamente reverenciada no coração das florestas sagradas como o palácio vivo dos espíritos ancestrais. Ao cruzar o Atlântico rumo à diáspora brasileira, seu culto foi acolhido e adaptado aos pés da frondosa gameleira-branca. No Brasil, seu temperamento é associado ao Èrò (calma e ponderação), embora sua exigência inflexível para que tudo se processe em seu próprio ritmo seja vista como severa e rígida aos olhos dos impacientes.

Sua mitologia o posiciona como o canal primordial de trânsito entre o Orun (o mundo espiritual) e o Aye (o mundo material), com ramificações que tocam o firmamento e raízes cravadas no inframundo, operando como o portal absoluto por onde transitam os Orixás e as almas dos mortos. Dono dos juramentos, Iroko testemunha promessas firmadas sob sua copa e cobra implacavelmente o cumprimento da palavra empenhada. Diante do célebre itan onde a humanidade quase se autoaniquilou em disputas de poder e foi castigada pelo raio de Exu, Iroko fez derramar suas folhas poderosas sobre as cinzas mundanas, manifestando que toda a agitação humana é efêmera perante a estabilidade, a constância e a eternidade dos ciclos do Tempo.

A criação fundamenta-se na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e na pesquisa minuciosa sobre a aerodinâmica mística vegetal e o culto aos ancestrais Egungun.

Construção dessa imagem: Vanguarda Cronológica: Utilizo a desconstrução e a dispersão geométrica para materializar a passagem invisível das eras. IROKO representa a vanguarda da imutabilidade; os pixels se desfazem na base e na lateral da tela para mostrar que o orixá não é escravo do Tempo, mas a própria eternidade que assiste, pacientemente, ao fluxo passageiro da agitação humana.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se na reverência sofisticada ao conceito de Èrò e na substituição botânica litúrgica que consagrou a gameleira-branca nos terreiros do país. O projeto reinterpreta a coroa e os colares de búzios sob uma ótica de design contemporâneo e luxo ancestral, homenageando a sabedoria e a autoridade dos anciãos que guardam a memória e os compromissos das dinastias afro-brasileiras.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a casca da árvore e a revoada de folhas conceituais. O panejamento branco imaculado que envolve a divindade parece inflar e se dissolver em pixels na extremidade inferior, convertendo o tecido votivo e a textura rugosa do tronco em uma armadura de estabilidade e justiça divina, onde o pano é a extensão da própria raiz que abriga os mortos.

Oxaguiã

Òsògìyán – O Trono da Civilização e as Ferramentas da Evolução

Esta obra se baseia na complexidade mitológica de Oxaguiã (ou Òsògìyán), uma das divindades mais dinâmicas do panteão iorubá. Originalmente cultuado na cidade de Ejigbô, na África, ele se manifesta como um jovem rei e guerreiro combativo, agitado e impetuoso, que utiliza a sabedoria e o trabalho estratégico para edificar a civilização, o progresso e a paz. Ao cruzar o Atlântico rumo à diáspora no Brasil, seu arquétipo ganhou traços ainda mais intensificados, sendo reverenciado nos terreiros como o “Orixá da instabilidade”. Ele é a força motriz que governa as reviravoltas necessárias para a evolução, transitando com maestria entre a calmaria profunda e uma energia combativa explosiva, quebrando paradigmas antigos para promover o recomeço.

Sua narrativa ganha contornos épicos através do famoso itan de sua paixão avassaladora por inhame pilado, iguaria que lhe conferiu o título de rei comedor de inhame. O cultivo incessante do tubérculo para satisfazer o monarca paralisou as demais atividades de Ejigbô, mergulhando a população no caos e na escassez. Guiado pelo oráculo através de Exu, o jovem rei recorreu à oficina do grande ferreiro Ogum. Da forja sagrada, Ogum moldou as primeiras ferramentas de ferro

  • enxadas, foices e ancinhos —, instrumentos tecnológicos que Oxaguiã entregou ao seu povo para ensinar a rotina do trabalho organizado e da agricultura estruturada, fazendo florescer a fartura e o equilíbrio social.

A criação fundamenta-se em quase décadas de vivência na Religiosidade de Matriz Africana no Brasil e na pesquisa minuciosa sobre a transição tecnológica da Idade do Bronze para a Idade do Ferro no culto dos orixás funfun.

Construção dessa imagem: Vanguarda Tecnológica: Utilizo a desconstrução e a dispersão digital para dar forma ao conceito de quebra de paradigmas. OXAGUIAN representa a vanguarda do movimento evolutivo; os pixels se desfazem nas extremidades superiores para mostrar que o progresso trazido por Oxaguiã não é estático, mas sim uma força revolucionária que reorganiza a sociedade através do trabalho e da estratégia inteligente.

Identidade Brasileira: A brasilidade manifesta-se na sofisticação com que a transição cultural de Ajagunã (Ajàgúnà – ou seja uma forma guerreira de apresentação de Oxalá) é celebrada nos terreiros do país. O projeto reinterpreta os colares de contas brancas e azuis e os panejamentos cruzados sobre o peito sob uma ótica de design contemporâneo, prestando tributo à liderança jovem e à capacidade de renovação que rege as comunidades afro-brasileiras.

Narrativa Têxtil: O projeto transforma a dinâmica da guerra e da reconstrução civilizatória em vestimenta ritual. O saiote branco imaculado e a faixa azul-marinho amarrada na cintura parecem responder ao movimento giratório da composição, convertendo o figurino sagrado e o feixe de atoris em uma armadura conceitual e ancestral, onde o tecido é a extensão da própria paz conquistada no campo de batalha.

Ficha Técnica

Direção Criativa: Fabio Seabra

Temática: Ancestralidade, Design Digital e Contemporaneidade

Base de Pesquisa: Itans Nigeriano-Brasileiros e a vivência na religiosidade diaspórica.

Vestir Histórias

Talvez a maior contribuição desta série esteja justamente em nos lembrar que a moda nunca foi apenas aparência.

Para os povos africanos, vestir-se sempre foi uma forma de narrar quem somos, de onde viemos e quais memórias escolhemos preservar.

Os Orixás não vestem apenas roupas.

Vestem conceitos.

Cada tecido é uma narrativa.

Cada metal é uma memória.

Cada búzio é uma herança.

Cada cor é uma tecnologia espiritual transmitida através das gerações.

Ao aproximar a estética ancestral africana da linguagem contemporânea da moda, Fabio Seabra cria uma obra que ultrapassa a representação religiosa e alcança um território mais amplo: o da identidade cultural.

Uma identidade que continua viva nas ruas, nos mercados, nos terreiros, nas passarelas, nas fotografias e nas novas gerações que seguem transformando memória em criação.

Porque, no fim, a moda mais poderosa não é aquela que apenas acompanha tendências.

É aquela que carrega histórias.

E poucas histórias são tão profundas quanto aquelas tecidas pela ancestralidade africana.

Fabio Seabra

Sobre Fabio Seabra

Artista visual, designer e diretor de arte, Fabio Seabra construiu uma trajetória marcada pelo encontro entre criatividade, tecnologia e identidade cultural. Com experiência em publicidade, comunicação e artes visuais, participou da transição da criação gráfica tradicional para o universo digital, desenvolvendo projetos para importantes instituições, marcas e iniciativas culturais brasileiras.

Sua produção artística é profundamente inspirada pela ancestralidade afro-brasileira, pela riqueza simbólica dos Orixás e pela diversidade estética que formou a identidade cultural do Brasil. Em suas obras, rostos, cores e elementos simbólicos dialogam para revelar narrativas de pertencimento, memória e espiritualidade.

Reconhecido por transformar referências ancestrais em linguagem visual contemporânea, Fabio Seabra desenvolve uma estética própria que une arte, design e sensibilidade cultural. Seu trabalho busca estabelecer pontes entre tradição e inovação, convidando o público a enxergar a ancestralidade como uma força viva, presente e continuamente reinventada através da arte.

Onde Encontrar:

Galeria Okan Mimó

Rua Gustavo Corção, 38 Recreio dos Bandeirantes

Rio de Janeiro – RJ

Tel: (21) 96956-7447

Site: https://www.okan-mimo.com.br/

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