A Cidade que Ainda Não Construímos
Quem planta no vento não colhe no chão. Aprendi isso cedo, numa ilha onde o vento é companheiro permanente e a terra só dá fruto a quem a respeita. Aprendi também no urbanismo, ao longo de mais de três décadas a pensar cidades entre Lisboa e o Mindelo, entre a Praia e muitos outros lugares pelo mundo: o território não mente e não esquece. Guarda as boas decisões e as más, os planos cumpridos e os que ficaram na gaveta, as oportunidades que aproveitámos e as que deixámos passar sem darmos por isso.No dia 3 de Julho, em Miami, os Tubarões Azuis fizeram algo que vai muito além de um resultado de futebol. Perante os campeões do mundo, com adversidades dentro e fora do campo, resistiram, acreditaram e deixaram o seu nome escrito na história desta Copa do Mundo com uma dignidade que nenhum marcador consegue medir. O golaço do Sidny Cabral, que igualou o marcador pela segunda vez já na prorrogação, ficará para sempre como símbolo de um povo que não desiste, mesmo quando tudo parece conspirar contra ele. Esse momento não foi sorte. Foi a consequência de anos de trabalho invisível, de uma cultura construída pacientemente, de uma crença que não depende da aprovação de ninguém.Devagar se vai longe. E Cabo Verde, que aprendeu a navegar antes de aprender a correr, sabe isso melhor do que ninguém.O QUE O CAMPO TEM A DIZER AO TERRITÓRIOEscrevo isto como arquitecto e urbanista, não como comentador desportivo. Escrevo porque o que vi em Miami me ensinou mais sobre construção do que muitos dos projectos em que trabalhei ao longo de trinta anos de profissão. Porque construir, no fundo, é sempre a mesma coisa: ter clareza sobre o que se quer ser, trabalhar honestamente com o que se tem, resistir quando o resultado demora, e não ceder à tentação do caminho mais curto quando o caminho certo é mais exigente.Temos tentado durante demasiado tempo construir cidades à imagem de modelos importados que não foram pensados para o nosso clima, para a nossa topografia, para a nossa forma de viver e de habitar o espaço. Importámos tipologias habitacionais de latitudes onde o sol e o vento se comportam de forma completamente diferente. Adoptámos linguagens arquitectónicas que nada dizem da nossa história e que envelhecem mal porque não têm raízes no lugar onde foram plantadas. E depois estranhamos que as nossas cidades não tenham a coesão nem a qualidade de vida que admiramos noutros sítios.A resposta não está em copiar melhor. Está em perceber, como a selecção percebeu há anos, que a nossa força vem de sermos o que somos. A arquitectura tradicional cabo-verdiana, construída durante séculos pela necessidade de responder ao vento, ao sol e à pedra disponível em cada ilha, é um arquivo de soluções inteligentes que continua a ser ignorado em nome de uma modernidade que não é nossa. As casas de pedra basáltica de Santo Antão, a morfologia urbana singular do Mindelo com a sua mistura única de influências, os centros históricos que sobreviveram porque foram pensados para durar, tudo isso é conhecimento vivo que merecia estar no centro das nossas políticas de habitação e de ordenamento.Identidade não é o que se pinta na fachada para parecer diferente. É o que se coloca na estrutura para ser reconhecível, por nós próprios primeiro, e pelo mundo a seguir.A CASA É O COMEÇO DE TUDOExiste uma tendência, instalada há muito no debate público cabo-verdiano, de discutir o desenvolvimento a partir dos grandes agregados: crescimento do produto interno, entrada de investimento externo, expansão do sector do turismo. São indicadores reais e importam. Mas nenhum deles diz nada sobre a família que quer ter a sua casa própria e não encontra caminho para isso, nem sobre o jovem casal que não consegue ficar porque as condições habitacionais disponíveis estão fora do seu alcance.A habitação é onde a política pública encontra a vida das pessoas de forma mais directa e mais duradoura. Uma casa bem construída não é apenas um tecto. É saúde, é estabilidade, é o lugar onde os filhos crescem sabendo que pertencem a algum sítio. É a diferença entre uma família que aguenta as dificuldades e uma que se desfaz por causa delas. Quem constrói bem para uma família está, sem precisar de discursos, a construir o país.O mercado imobiliário, quando funciona sem enquadramento, tende a servir quem já tem condições para entrar nele. O investimento procura retorno e encontra-o onde a procura consegue pagar. O resultado vê-se nas nossas cidades: de um lado, construção nova e valorizada; do outro, crescimento informal persistente onde chegam os que ficaram fora dessa equação. Não é culpa do mercado agir assim. É responsabilidade do Estado não deixar que o mercado actue sozinho onde a equidade está em causa. Como diz o ditado, quem semeia ventos colhe tempestades. E as cidades que crescem sem plano cobram sempre a conta, mais cedo ou mais tarde.Não se pode pedir a um povo que acredite no seu país se o país ainda não conseguiu garantir que esse povo tem onde viver com dignidade e com esperan
Quem planta no vento não colhe no chão. Aprendi isso cedo, numa ilha onde o vento é companheiro permanente e a terra só dá fruto a quem a respeita. Aprendi também no urbanismo, ao longo de mais de três décadas a pensar cidades entre Lisboa e o Mindelo, entre a Praia e muitos outros lugares pelo mundo: o território não mente e não esquece. Guarda as boas decisões e as más, os planos cumpridos e os que ficaram na gaveta, as oportunidades que aproveitámos e as que deixámos passar sem darmos por isso.
No dia 3 de Julho, em Miami, os Tubarões Azuis fizeram algo que vai muito além de um resultado de futebol. Perante os campeões do mundo, com adversidades dentro e fora do campo, resistiram, acreditaram e deixaram o seu nome escrito na história desta Copa do Mundo com uma dignidade que nenhum marcador consegue medir. O golaço do Sidny Cabral, que igualou o marcador pela segunda vez já na prorrogação, ficará para sempre como símbolo de um povo que não desiste, mesmo quando tudo parece conspirar contra ele. Esse momento não foi sorte. Foi a consequência de anos de trabalho invisível, de uma cultura construída pacientemente, de uma crença que não depende da aprovação de ninguém.
Devagar se vai longe. E Cabo Verde, que aprendeu a navegar antes de aprender a correr, sabe isso melhor do que ninguém.
O QUE O CAMPO TEM A DIZER AO TERRITÓRIO
Escrevo isto como arquitecto e urbanista, não como comentador desportivo. Escrevo porque o que vi em Miami me ensinou mais sobre construção do que muitos dos projectos em que trabalhei ao longo de trinta anos de profissão. Porque construir, no fundo, é sempre a mesma coisa: ter clareza sobre o que se quer ser, trabalhar honestamente com o que se tem, resistir quando o resultado demora, e não ceder à tentação do caminho mais curto quando o caminho certo é mais exigente.
Temos tentado durante demasiado tempo construir cidades à imagem de modelos importados que não foram pensados para o nosso clima, para a nossa topografia, para a nossa forma de viver e de habitar o espaço. Importámos tipologias habitacionais de latitudes onde o sol e o vento se comportam de forma completamente diferente. Adoptámos linguagens arquitectónicas que nada dizem da nossa história e que envelhecem mal porque não têm raízes no lugar onde foram plantadas. E depois estranhamos que as nossas cidades não tenham a coesão nem a qualidade de vida que admiramos noutros sítios.
A resposta não está em copiar melhor. Está em perceber, como a selecção percebeu há anos, que a nossa força vem de sermos o que somos. A arquitectura tradicional cabo-verdiana, construída durante séculos pela necessidade de responder ao vento, ao sol e à pedra disponível em cada ilha, é um arquivo de soluções inteligentes que continua a ser ignorado em nome de uma modernidade que não é nossa. As casas de pedra basáltica de Santo Antão, a morfologia urbana singular do Mindelo com a sua mistura única de influências, os centros históricos que sobreviveram porque foram pensados para durar, tudo isso é conhecimento vivo que merecia estar no centro das nossas políticas de habitação e de ordenamento.
Identidade não é o que se pinta na fachada para parecer diferente. É o que se coloca na estrutura para ser reconhecível, por nós próprios primeiro, e pelo mundo a seguir.
A CASA É O COMEÇO DE TUDO
Existe uma tendência, instalada há muito no debate público cabo-verdiano, de discutir o desenvolvimento a partir dos grandes agregados: crescimento do produto interno, entrada de investimento externo, expansão do sector do turismo. São indicadores reais e importam. Mas nenhum deles diz nada sobre a família que quer ter a sua casa própria e não encontra caminho para isso, nem sobre o jovem casal que não consegue ficar porque as condições habitacionais disponíveis estão fora do seu alcance.
A habitação é onde a política pública encontra a vida das pessoas de forma mais directa e mais duradoura. Uma casa bem construída não é apenas um tecto. É saúde, é estabilidade, é o lugar onde os filhos crescem sabendo que pertencem a algum sítio. É a diferença entre uma família que aguenta as dificuldades e uma que se desfaz por causa delas. Quem constrói bem para uma família está, sem precisar de discursos, a construir o país.
O mercado imobiliário, quando funciona sem enquadramento, tende a servir quem já tem condições para entrar nele. O investimento procura retorno e encontra-o onde a procura consegue pagar. O resultado vê-se nas nossas cidades: de um lado, construção nova e valorizada; do outro, crescimento informal persistente onde chegam os que ficaram fora dessa equação. Não é culpa do mercado agir assim. É responsabilidade do Estado não deixar que o mercado actue sozinho onde a equidade está em causa. Como diz o ditado, quem semeia ventos colhe tempestades. E as cidades que crescem sem plano cobram sempre a conta, mais cedo ou mais tarde.
Não se pode pedir a um povo que acredite no seu país se o país ainda não conseguiu garantir que esse povo tem onde viver com dignidade e com esperança.
ARQUITECTURA É POLÍTICA, NÃO É ORNAMENTO
Ao longo de mais de trinta anos de prática profissional, uma das batalhas que mais me custou travar foi esta: convencer quem decide que a arquitectura não é o acabamento do desenvolvimento. É a sua estrutura. É a diferença entre uma escola onde os alunos aprendem melhor porque o espaço os ajuda, e uma escola que é apenas um contentor com carteiras. Entre um bairro onde as pessoas se encontram naturalmente e constroem laços, e um conjunto de edifícios onde cada um fecha a porta e não conhece o vizinho do lado.
Uma habitação que respeita o sol, o vento e a chuva específicos de cada ilha custa menos a construir, menos a manter e oferece mais conforto a quem nela vive. Estes não são argumentos estéticos. São argumentos de economia e de bem-estar que qualquer gestor público devia ter em conta antes de aprovar o próximo conjunto habitacional. O barato sai sempre caro, e em arquitectura essa verdade confirma-se com uma regularidade que cansa.
Com um novo Governo instalado, as peças do território voltam a ser distribuídas. As infraestruturas, a habitação e o ordenamento têm uma casa. A cultura, a juventude e o desporto têm outra. O que falta, e sempre faltou, não é a organização das tutelas. É a conversa entre elas. Porque uma cidade não é a soma das suas competências administrativas. É a síntese do que um povo decide ser. E essa síntese só acontece quando quem governa aceita que o território é maior do que qualquer organograma.
O QUE PROPONHO A QUEM DECIDE
Primeiro: que a habitação seja assumida como prioridade de governação real, com dotação orçamental própria, metas mensuráveis e um programa que chegue a quem mais precisa. Não habitação como promessa de campanha que envelhece mal. Habitação como política pública com endereço, calendário e responsabilidade perante os resultados.
Segundo: que os instrumentos de gestão territorial sejam actualizados com urgência nas ilhas com maior pressão de crescimento. Em urbanismo existe uma lei não escrita mas sempre confirmada: é sempre mais fácil planear antes de construir do que tentar ordenar o que já cresceu sem regra. Um plano feito depois da cidade já ter crescido descreve o problema. Não o resolve.
Terceiro: que a arquitectura e o urbanismo sejam reconhecidos como investimento e não como despesa. Que se contratem os melhores profissionais para os projectos públicos, que se exija qualidade nos concursos, que se valorize o conhecimento técnico formado dentro do país. Cabo Verde tem arquitectos, urbanistas, geógrafos e engenheiros que escolheram ficar e construir aqui. Essa escolha merece ser correspondida com políticas que a tornem sustentável e que a reconheçam como o activo estratégico que é.
Estas não são reivindicações de uma classe profissional. São condições mínimas para que o que se construir em Cabo Verde nos próximos anos seja sustentável, justo e reconhecível como obra de um povo que decidiu, de vez, apostar em si próprio.
O REGRESSO QUE MERECE SER CORRESPONDIDO
Os Tubarões Azuis regressaram. As ruas disseram o que as palavras raramente conseguem. Agora, depois da festa, fica a lição. O percurso que os levou até à Copa do Mundo a defrontar os campeões mundiais de igual para igual foi construído com paciência, com método e com a convicção inabalável de que os limites impostos de fora não são os únicos limites possíveis . É exactamente isso que as nossas cidades estão à espera que façamos por elas.
Existe neste arquipélago uma energia que não é fácil de nomear mas que qualquer um que a tenha sentido de perto reconhece de imediato. É a energia de quem aprendeu a transformar a escassez em engenho, o isolamento em abertura, a saudade em laço que não se corta com a distância. Está nas ruas do Mindelo quando o carnaval toma conta da cidade e o mundo pára para olhar. Está nos jovens que terminam a formação lá fora e escolhem voltar porque sabem que há aqui algo que não existe em mais lugar nenhum. Está nos emigrantes que constroem a casa antes de precisar dela porque nunca perderam a certeza de que pertencem a um sítio.
Essa energia merece cidades à sua altura. Habitação que a fixe em vez de a expulsar. Espaços públicos que a celebrem em vez de a ignorar. Uma arquitectura que olhe para o território não como problema a gerir mas como oportunidade a construir, com as mãos e o conhecimento que cá estão.
A cidade que ainda não construímos não é uma utopia. É um projecto. E como todos os projectos que valem a pena, começa com uma decisão e com quem a toma a sério.
A natureza não dá saltos, dizia Leibniz. E de facto, nenhuma grande transformação acontece de uma vez. As nossas cidades cresceram assim, camada sobre camada, decisão sobre decisão, erro sobre acerto. O que os Tubarões Azuis nos mostraram é que quando um povo decide construir com método e com alma, o mundo acaba sempre por reconhecer o que foi feito. As nossas cidades merecem essa mesma determinação. Esse mesmo cuidado. Esse mesmo tempo.
