António Nascimento, Embaixador e Director Geral do IDCV “A única ancoragem segura para Cabo Verde continua a ser o multilateralismo”
Num mundo marcado pela erosão das regras internacionais, pela ascensão de novas potências e pela crescente influência das grandes empresas tecnológicas, Cabo Verde precisa de reforçar a sua capacidade de análise estratégica e de afirmação externa. A convicção é de António Nascimento, director-geral do Instituto Diplomático de Cabo Verde, que defende uma diplomacia mais preparada, mais qualificada e capaz de identificar os interesses nacionais num contexto internacional cada vez mais complexo e imprevisível.Criado em 2023, o Instituto Diplomático nasceu após várias tentativas falhadas de dotar o país de uma estrutura dedicada à formação, ao estudo e à reflexão estratégica sobre política externa. Desde então, a instituição tem vindo a consolidar-se em torno de três pilares: formação, estudos e análise internacional, e produção de conhecimento.Em entrevista ao Expresso das Ilhas, António Nascimento fala dos desafios da diplomacia cabo-verdiana, da necessidade de preparar quadros para um mundo em transformação, do papel da cultura como instrumento de influência internacional e da urgência de repensar a política externa do país cinquenta anos após a independência.Formar diplomatas para um mundo novoO primeiro grande eixo de actuação do Instituto Diplomático é a formação.Segundo António Nascimento, a instituição definiu um conjunto de módulos obrigatórios que passaram a integrar a formação dos novos diplomatas recrutados em 2023. Paralelamente, foram reforçadas parcerias internacionais com algumas das mais prestigiadas escolas diplomáticas do mundo.Uma dessas parcerias é mantida com o Instituto Rio Branco, no Brasil, onde diplomatas cabo-verdianos continuam a receber formação especializada. Existe igualmente um acordo com a Escola Diplomática de Madrid e programas regulares de aperfeiçoamento linguístico na Nova Zelândia.“A diplomacia exige competências muito específicas. Ter um curso universitário em Relações Internacionais ou Direito Internacional não significa automaticamente estar preparado para a carreira diplomática”, explica.Nesse sentido, o Instituto aposta também na capacitação contínua dos quadros já em funções, incluindo aqueles que se encontram colocados nas missões diplomáticas no exterior.Um dos projectos mais recentes foi a criação do primeiro laboratório de línguas do Instituto Diplomático, inaugurado este ano. O objectivo é garantir que diplomatas e outros funcionários ligados à política externa adquiram competências linguísticas adequadas antes de assumirem funções fora do país.“Não faz sentido alguém chegar a um posto diplomático e só então perceber que não domina suficientemente a língua necessária para exercer as suas funções”, sustenta.Os cursos de inglês e francês arrancam ainda este ano, estando prevista a introdução progressiva do espanhol, mandarim e árabe. Através de uma futura plataforma digital, o Instituto pretende igualmente disponibilizar conteúdos formativos aos diplomatas colocados no estrangeiro.Um instituto para todo o sistema de política externaEmbora vocacionado para os quadros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Instituto Diplomático não se limita a essa esfera.António Nascimento sublinha que a política externa cabo-verdiana é hoje construída por um conjunto alargado de instituições, incluindo a Presidência da República, a Assembleia Nacional, os diversos ministérios e os municípios, através das suas actividades de cooperação internacional e geminações.Por essa razão, o Instituto tem vindo a promover acções de formação dirigidas ao chamado Sistema Nacional de Política Externa, procurando garantir uma maior coordenação entre os diferentes actores.“Não se trata de uniformizar posições nem de limitar iniciativas. Trata-se de assegurar que todos compreendem e defendem os interesses nacionais fundamentais da mesma forma”, afirma.A ambição vai ainda mais longe. No futuro, o Instituto pretende criar condições para acolher e formar diplomatas de outros países, transformando Cabo Verde num centro regional de formação diplomática.Pensar estrategicamente o interesse nacionalO segundo grande pilar do Instituto é o Centro de Estudos e Análises Internacionais.Num contexto internacional marcado por crises sucessivas, guerras, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas aceleradas, António Nascimento considera essencial que Cabo Verde desenvolva capacidades próprias de análise estratégica.“O principal desafio é identificar onde estão os interesses nacionais e como protegê-los”, resume.A missão do centro passa por estudar fenómenos, tendências e acontecimentos internacionais susceptíveis de afectar o país, directa ou indirectamente.A guerra na Ucrânia, a instabilidade no Médio Oriente, as alterações nas cadeias globais de abastecimento ou mesmo eventuais conflitos noutras regiões do mundo são exemplos de situações que devem ser analisadas sob a perspectiva dos seus impactos em Cabo Verde.O objectivo é produzir documentos de apoio à decisão política, incluindo análises estratégi
Num mundo marcado pela erosão das regras internacionais, pela ascensão de novas potências e pela crescente influência das grandes empresas tecnológicas, Cabo Verde precisa de reforçar a sua capacidade de análise estratégica e de afirmação externa. A convicção é de António Nascimento, director-geral do Instituto Diplomático de Cabo Verde, que defende uma diplomacia mais preparada, mais qualificada e capaz de identificar os interesses nacionais num contexto internacional cada vez mais complexo e imprevisível.
Criado em 2023, o Instituto Diplomático nasceu após várias tentativas falhadas de dotar o país de uma estrutura dedicada à formação, ao estudo e à reflexão estratégica sobre política externa. Desde então, a instituição tem vindo a consolidar-se em torno de três pilares: formação, estudos e análise internacional, e produção de conhecimento.
Em entrevista ao Expresso das Ilhas, António Nascimento fala dos desafios da diplomacia cabo-verdiana, da necessidade de preparar quadros para um mundo em transformação, do papel da cultura como instrumento de influência internacional e da urgência de repensar a política externa do país cinquenta anos após a independência.
Formar diplomatas para um mundo novo
O primeiro grande eixo de actuação do Instituto Diplomático é a formação.
Segundo António Nascimento, a instituição definiu um conjunto de módulos obrigatórios que passaram a integrar a formação dos novos diplomatas recrutados em 2023. Paralelamente, foram reforçadas parcerias internacionais com algumas das mais prestigiadas escolas diplomáticas do mundo.
Uma dessas parcerias é mantida com o Instituto Rio Branco, no Brasil, onde diplomatas cabo-verdianos continuam a receber formação especializada. Existe igualmente um acordo com a Escola Diplomática de Madrid e programas regulares de aperfeiçoamento linguístico na Nova Zelândia.
“A diplomacia exige competências muito específicas. Ter um curso universitário em Relações Internacionais ou Direito Internacional não significa automaticamente estar preparado para a carreira diplomática”, explica.
Nesse sentido, o Instituto aposta também na capacitação contínua dos quadros já em funções, incluindo aqueles que se encontram colocados nas missões diplomáticas no exterior.
Um dos projectos mais recentes foi a criação do primeiro laboratório de línguas do Instituto Diplomático, inaugurado este ano. O objectivo é garantir que diplomatas e outros funcionários ligados à política externa adquiram competências linguísticas adequadas antes de assumirem funções fora do país.
“Não faz sentido alguém chegar a um posto diplomático e só então perceber que não domina suficientemente a língua necessária para exercer as suas funções”, sustenta.
Os cursos de inglês e francês arrancam ainda este ano, estando prevista a introdução progressiva do espanhol, mandarim e árabe. Através de uma futura plataforma digital, o Instituto pretende igualmente disponibilizar conteúdos formativos aos diplomatas colocados no estrangeiro.
Um instituto para todo o sistema de política externa
Embora vocacionado para os quadros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o Instituto Diplomático não se limita a essa esfera.
António Nascimento sublinha que a política externa cabo-verdiana é hoje construída por um conjunto alargado de instituições, incluindo a Presidência da República, a Assembleia Nacional, os diversos ministérios e os municípios, através das suas actividades de cooperação internacional e geminações.
Por essa razão, o Instituto tem vindo a promover acções de formação dirigidas ao chamado Sistema Nacional de Política Externa, procurando garantir uma maior coordenação entre os diferentes actores.
“Não se trata de uniformizar posições nem de limitar iniciativas. Trata-se de assegurar que todos compreendem e defendem os interesses nacionais fundamentais da mesma forma”, afirma.
A ambição vai ainda mais longe. No futuro, o Instituto pretende criar condições para acolher e formar diplomatas de outros países, transformando Cabo Verde num centro regional de formação diplomática.
Pensar estrategicamente o interesse nacional
O segundo grande pilar do Instituto é o Centro de Estudos e Análises Internacionais.
Num contexto internacional marcado por crises sucessivas, guerras, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas aceleradas, António Nascimento considera essencial que Cabo Verde desenvolva capacidades próprias de análise estratégica.
“O principal desafio é identificar onde estão os interesses nacionais e como protegê-los”, resume.
A missão do centro passa por estudar fenómenos, tendências e acontecimentos internacionais susceptíveis de afectar o país, directa ou indirectamente.
A guerra na Ucrânia, a instabilidade no Médio Oriente, as alterações nas cadeias globais de abastecimento ou mesmo eventuais conflitos noutras regiões do mundo são exemplos de situações que devem ser analisadas sob a perspectiva dos seus impactos em Cabo Verde.
O objectivo é produzir documentos de apoio à decisão política, incluindo análises estratégicas, relatórios de conjuntura e recomendações que possam ajudar o Governo a posicionar-se perante cenários complexos.
“Hoje já não basta reagir aos acontecimentos. É preciso antecipar, prever e preparar respostas”, defende.
Entre o hard power e o soft power
Ao longo da entrevista, António Nascimento insiste numa ideia central: países pequenos como Cabo Verde não podem competir através dos instrumentos tradicionais de poder.
Sem dimensão militar, económica ou geopolítica comparável à das grandes potências, o país deve apostar sobretudo no chamado soft power, ou seja, na capacidade de influenciar através da cultura, da reputação, do conhecimento e dos valores.
Nesse contexto, considera que Cabo Verde dispõe de activos ainda insuficientemente explorados.
A música, os festivais culturais, a diáspora, a estabilidade política e a imagem positiva do país constituem instrumentos valiosos de projecção internacional.
“O país já tem uma dinâmica cultural extraordinária. O que precisamos é de ligar essa dinâmica à acção diplomática e abrir mais portas no exterior”, defende.
Para António Nascimento, a diplomacia cultural deve assumir um papel cada vez mais relevante na estratégia externa cabo-verdiana.
O potencial da diplomacia de conferências
Outra aposta defendida pelo director-geral do Instituto Diplomático é a chamada diplomacia de conferências.
A ideia passa por posicionar Cabo Verde como destino regular para encontros internacionais, fóruns especializados e eventos de grande dimensão.
Segundo António Nascimento, cidades como Lisboa demonstraram que este tipo de actividade pode gerar impactos económicos significativos através da hotelaria, restauração, transportes, cultura e serviços.
“Cabo Verde é um país onde as pessoas gostam de estar. Precisamos de reforçar as condições logísticas para atrair mais eventos internacionais”, argumenta.
Na sua visão, o arquipélago deve deixar de se ver apenas como receptor de ajuda externa e passar também a assumir-se como fornecedor de conhecimento e assistência técnica em áreas onde acumulou experiência relevante.
O municipalismo, o turismo, a governação democrática ou determinados sectores da administração pública são apontados como exemplos de competências exportáveis para outros países.
História, património e diplomacia
Entre os projectos actualmente desenvolvidos pelo Centro de Estudos e Análises Internacionais encontram-se iniciativas que procuram valorizar elementos históricos e patrimoniais de Cabo Verde como instrumentos de projecção internacional.
Um dos projectos mais avançados é a valorização do marco do Tratado de Tordesilhas, localizado em Ponta do Sol, na ilha de Santo Antão.
O Instituto trabalha igualmente na investigação da herança judaica em Cabo Verde, procurando compreender melhor a influência histórica das comunidades judaicas na formação da sociedade cabo-verdiana.
A rota de Charles Darwin e os grandes naufrágios associados à história marítima do arquipélago constituem outras linhas de investigação em curso.
Segundo António Nascimento, estes temas não têm apenas interesse académico ou patrimonial. Podem também contribuir para reforçar ligações internacionais, atrair visitantes, mobilizar comunidades da diáspora e criar novas oportunidades económicas.
“Temos de aprender a olhar para os nossos activos históricos e culturais também como instrumentos de política externa”, afirma.
Um livro para estimular o pensamento diplomático
A produção de conhecimento constitui o terceiro pilar do Instituto Diplomático.
Nesse âmbito surgiu recentemente a obra “Política Externa e Diplomacia: Dinâmicas Internacionais”, que reúne contributos de diplomatas, académicos e especialistas de diversas áreas.
O livro nasceu por iniciativa de jovens diplomatas e acabou por ser acolhido pelo Instituto como um projecto estratégico.
A publicação aborda temas tão diversos como integração regional, diplomacia climática, cibersegurança, diplomacia digital e política externa cabo-verdiana.
Mais do que produzir um simples livro, o objectivo passa por criar uma cultura de investigação e reflexão permanente dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
“O respeito institucional conquista-se também através da produção de conhecimento”, defende António Nascimento.
A aposta inclui ainda a futura criação de uma revista científica e o incentivo à publicação regular de estudos e ensaios.
O desafio da era digital
Entre os temas que mais preocupam o director-geral do Instituto Diplomático está o impacto da revolução tecnológica nas relações internacionais.
Para António Nascimento, a inteligência artificial, as plataformas digitais e o poder crescente das grandes empresas tecnológicas estão a transformar profundamente a diplomacia.
“Muitas destas empresas possuem hoje mais capacidade de influência do que vários Estados”, observa.
A questão coloca novos desafios ao direito internacional e à própria governação global.
O Instituto tem vindo a trabalhar em orientações relacionadas com a utilização ética da inteligência artificial e procura integrar estas matérias na formação das novas gerações de diplomatas.
“A diplomacia do futuro terá inevitavelmente de ser também uma diplomacia digital”, afirma.
Defender o multilateralismo
Questionado sobre a crescente fragilidade das instituições internacionais e o regresso de discursos nacionalistas e extremistas em várias partes do mundo, António Nascimento admite que a comunidade internacional atravessa um momento de profunda incerteza.
O modelo baseado nas Nações Unidas, nos tratados internacionais e nas regras multilaterais enfrenta hoje desafios sem precedentes.
Ainda assim, considera que essa continua a ser a melhor solução disponível, sobretudo para pequenos Estados como Cabo Verde.
“Se abandonarmos o multilateralismo, regressamos à lógica da força. E nessa lógica os pequenos países têm sempre muito mais a perder”, alerta.
Por isso, defende que Cabo Verde deve continuar a posicionar-se firmemente em defesa da soberania dos Estados, da integridade territorial, do respeito pelo direito internacional e da cooperação multilateral.
“A nossa principal ancoragem continua a ser o sistema de princípios e valores do multilateralismo”, sustenta.
Uma política externa com visão
Ao completar quase três anos de existência, o Instituto Diplomático procura afirmar-se como um espaço de reflexão, formação e produção de conhecimento ao serviço da política externa cabo-verdiana.
Para António Nascimento, o desafio fundamental passa por garantir coerência estratégica e visão de longo prazo.
“Uma política externa forte exige pensamento claro, coordenação institucional e capacidade de antecipação”, resume.
Num cenário internacional cada vez mais imprevisível, o director-geral do Instituto Diplomático acredita que Cabo Verde só conseguirá preservar a sua autonomia e defender eficazmente os seus interesses se investir na qualificação dos seus recursos humanos, no conhecimento e numa diplomacia capaz de compreender as mudanças profundas que estão a redefinir a ordem mundial.
Cinquenta anos após a independência, conclui, chegou o momento de o país olhar mais longe e repensar o seu lugar no mundo.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1281 de 17 de Junho de 2026.