Ebola, doença, descaso e racismo
Como sentenciou o fotógrafo Januário Garcia, certa vez: “Já existia uma história da África antes do Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem a África”. Essa frase não é apenas memória: é advertência. O que vemos hoje com o vírus ebola no continente africano repete, em nova embalagem, um roteiro antigo inaugurado quando […] O conteúdo Ebola, doença, descaso e racismo aparece primeiro em Revista Raça Brasil.
Como sentenciou o fotógrafo Januário Garcia, certa vez: “Já existia uma história da África antes do Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem a África”. Essa frase não é apenas memória: é advertência. O que vemos hoje com o vírus ebola no continente africano repete, em nova embalagem, um roteiro antigo inaugurado quando o homem branco pisou naquele continente com seu projeto de colonização, expropriação e desumanização. A doença não é só biológica. Ela é política, racial e econômica. É a continuidade de uma lógica que trata corpos de pessoas negras como descartáveis.
Os séculos XIX e XX foram a era da partilha, do saque e do apagamento do protagonismo africano. As conferências de Berlim rasgaram mapas, inventaram fronteiras e jogaram etnias umas contra as outras para facilitar a pilhagem. O resultado foram guerras étnicas que sangraram o continente: Ruanda em 1994, com quase um milhão de mortos em 100 dias sem alarde midiatico; o conflito em Biafra na Nigéria; a guerra civil em Serra Leoa; os massacres no Congo Belga e depois na República Democrática do Congo.
Da metade do século XX pra cá, a Guerra Fria transformou a África em tabuleiro de disputa entre Estados Unidos e União Soviética, financiando ditaduras, golpes e guerras por procuração em Angola, Moçambique e Etiópia. O padrão é o mesmo: quando interessa ao Norte Global, há intervenção; quando não interessa, há silêncio e abandono.
O ebola se encaixa nesse roteiro. Identificado pela primeira vez em 1976, no Zaire, hoje República Democrática do Congo, o vírus matou milhares de africanos em surtos recorrentes por quase cinquenta anos. Enquanto a doença estava “contida” em aldeias e cidades africanas, não houve comoção moral, ética ou informativa da mídia ocidental. Laboratórios, governos e big pharmas não viram mercado nem urgência, bem diferente da covid 19, com solução rápida, afinal foi o continente europeu o primeiro a sangrar. Só quando o ebola ameaçou cruzar o Atlântico e atingir Europa e Estados Unidos, a partir de 2014, é que verbas apareceram, manchetes gritaram e a corrida por uma “vacina mais potente e segura” virou prioridade. O recado foi claro: a vida africana só ganha valor quando a morte africana ameaça a vida branca.
Esse descaso é também preconceito travestido de ciência. Durante décadas, narrativas midiáticas associaram o ebola a “costumes primitivos”, “falta de higiene” e “atraso civilizatório”, ignorando o colapso dos sistemas de saúde provocado por séculos de exploração colonial e décadas de ajustes estruturais impostos pelo FMI. O vírus expôs não a fragilidade africana, mas a falência ética do mundo. Expôs como o racismo estrutura a resposta global a emergências sanitárias: quem vive, quem morre e quem merece ser salvo primeiro.
O Brasil não pode se fingir de espectador. Fomos o país que mais traficou africanos no mundo, somos a maior nação negra fora da África e temos uma dívida histórica impagável com aquele continente. Essa dívida não se resolve com retórica. Ela exige responsabilidade moral e política: pressionar por acesso equitativo a vacinas, romper o silêncio diplomático, denunciar o abandono e integrar a África na nossa agenda de Estado, não como caridade, mas como reparação e interesse comum. Porque se a África sangra sozinha, a humanidade inteira adoece. E se o Brasil não entende que sua história, sua cultura e seu futuro estão umbilicalmente ligados ao continente africano, então continuaremos repetindo, aqui e lá, o mesmo ciclo de doença, descaso e preconceito.
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